Recebido: 14.01.2026
Aprovado: 15.07.2026
Avaliado: Sistema Double Blind Review
SUSTENTABILIDADE EM EVENTOS CULTURAIS: UMA ANÁLISE MULTIDIMENSIONAL DO
CARNAVAL DE DIAMANTINA-MINAS GERAIS
SUSTAINABILITY IN CULTURAL EVENTS: A MULTIDIMENSIONAL ANALYSIS OF THE
DIAMANTINA-MINAS GERAIS CARNIVAL
Nome do autor[1]: Hugo Rodrigues de Araujo
E-MAIL: hugo.araujo@ufvjm.edu.br
ORCID: 0000-0001-9371-4886
Nome do autor[2]: Marianna Ferreira Coelho
E-MAIL: marianna.coelho@ufvjm.edu.br
Nome do autor[3]: Alberto Reis Neto
E-MAIL: alberto.reis@ufvjm.edu.br
RESUMO
Este estudo
caracteriza-se como uma investigação qualiquantitativa, de caráter descritivo e
exploratório, que teve o objetivo de analisar as transformações estruturais do
carnaval de Diamantina, Minas Gerais, e suas implicações para a
sustentabilidade. A coleta de dados foi realizada in loco durante os cinco dias
de festividades de 2025, por meio de questionário estruturado aplicado a 370
residentes, 344 visitantes e 76 empresários locais. As questões fechadas
tiveram como objetivo avaliar a percepção dos participantes acerca dos impactos
culturais, sociais, ambientais e econômicos do evento, e a única questão aberta
possibilitou a livre manifestação de comentários. Os resultados mostram que,
embora o carnaval de Diamantina apresenta práticas sustentáveis, ainda
persistem desafios, sobretudo no que tange à promoção da equidade e à efetiva
integração das práticas culturais e sociais.
Palavras-chave: Carnaval. Evento artístico-cultural.
Gestão de destinos turísticos. Turismo sustentável. Perfil sociodemográfico.
ABSTRACT
This
study is characterized as a qualitative–quantitative, descriptive and
exploratory investigation, aimed at analyzing the structural transformations of
the Carnival of Diamantina, Minas Gerais, and their implications for
sustainability. Data collection was carried out in loco during the five days of
the 2025 festivities, through a structured questionnaire administered to 370
residents, 344 visitors, and 76 local business owners. The closed-ended
questions sought to assess participants’ perceptions of the cultural, social,
environmental, and economic impacts of the event, while the single open-ended
question allowed for the free expression of comments. The results indicate
that, although the Carnival of Diamantina incorporates sustainable practices,
challenges remain, particularly with regard to promoting equity and ensuring
the effective integration of cultural and social practices.
Keywords: Carnival. Artistic-cultural evento. Tourism destination management. Sustainable
tourism. Sociodemographic profile.
1. INTRODUÇÃO
Diamantina, localizada na região do Alto Jequitinhonha, em Minas Gerais, destaca-se como um município de relevante importância histórica, cultural e ambiental no contexto brasileiro. Reconhecida como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1999, a cidade preserva um conjunto arquitetônico colonial singular, caracterizado por casarões, igrejas e ruas de pedra que remontam ao ciclo do diamante do século XVIII.
O carnaval de Diamantina, embora tenha passado por transformações significativas ao longo dos últimos anos, ainda se configura como um evento de grande relevância cultural, social e econômica para o município. Inicialmente estruturado com financiamento público, o evento era caracterizado como um “carnaval de rua”, com apresentações musicais de pequeno porte, protagonizadas por músicos locais e blocos carnavalescos. Esse modelo promovia um ambiente mais familiar, atraindo um público “seleto”, formado majoritariamente por moradores da cidade e famílias, e acontecia em espaços abertos, como a Praça Barão de Guaicuí e a Rua da Quitanda, integrando-se ao casario colonial como elemento simbólico e espacial (Araújo, 2019).
Segundo Araújo (2019), a partir da década de 2000 houve uma mudança marcante na gestão e no formato do evento, com a transição do financiamento público para o investimento privado. Essa alteração impulsionou o crescimento do turismo de massa, ampliando significativamente o número de visitantes, especialmente caravanas de jovens atraídos por apresentações musicais de grande porte, realizadas por bandas locais de renome a nível nacional, como Bat-Caverna e Bartucada.
Conforme apontado por Araújo (2019), a ampliação do público e a adoção de um formato massivo resultaram em consequências socioambientais significativas, como o acúmulo de lixo, a sobrecarga nos serviços urbanos, a degradação do patrimônio histórico e o desconforto de quem mora na região. Além disso, o evento gerava uma grande movimentação financeira, porém comerciantes e prestadores de serviços locais passaram a questionar os reais benefícios, uma vez que os lucros eram, em grande parte, direcionados a empresas externas.
A partir de 2013, o carnaval de Diamantina entrou em um período de declínio, associado a crises políticas e financeiras, atrasos na organização e mudanças no perfil do público. Esse declínio resultou na redução do número de visitantes e na rentabilidade para comerciantes e trabalhadores informais, fomentando debates sobre o futuro do evento e sua sustentabilidade econômica. Ao mesmo tempo, observou-se um movimento de revalorização do “carnaval de rua” tradicional, com menor escala, maior protagonismo de músicos locais e a retomada da centralidade dos blocos carnavalescos, embora esse novo formato tenha sido acompanhado por uma queda na arrecadação e insatisfação de setores do trade turístico.
Considerando a complexidade do contexto apresentado, este estudo partiu do pressuposto de que a análise dos efeitos das mudanças estruturais do carnaval de Diamantina, ao longo dos anos, requer uma abordagem que considere a sua sustentabilidade, compreendida como a articulação equilibrada de parâmetros culturais, sociais, ambientais e econômicos (Sachs, 2000).
Apesar do crescente interesse acadêmico pela temática da sustentabilidade, observa-se que, no caso específico de Diamantina, embora existam estudos voltados à sua dinâmica cultural e aos impactos do turismo, ainda não se identificam investigações que analisem a sustentabilidade aplicada ao seu carnaval de maneira multidimensional, sobretudo quando consideradas as transformações estruturais verificadas nas últimas décadas.
Nesse sentido, definiu-se como problema de investigação a seguinte questão: quais são os impactos das transformações observadas na gestão e no formato do carnaval de Diamantina sob a perspectiva da sustentabilidade?
A partir dessa problemática, definiu-se como objetivo analisar as relações entre as transformações estruturais do Carnaval de Diamantina e seus efeitos sobre a sustentabilidade, considerando a percepção dos moradores locais, visitantes e agentes econômicos envolvidos no evento.
Para a atingir o objetivo da pesquisa, foram entrevistados 714 participantes do Carnaval de Diamantina em 2025, sendo 370 residentes e 344 visitantes, além de 76 empresários locais. Assim, este estudo se diferencia ao propor uma abordagem multidimensional e empírica, baseada em ampla amostragem de moradores, visitantes e empresários, oferecendo evidências inéditas sobre como diferentes públicos percebem a sustentabilidade do evento.
Os resultados desta pesquisa contribuem para a ciência ao ampliar o
conhecimento sobre a incorporação de práticas sustentáveis em eventos
culturais, fornecendo dados empíricos que enriquecem estudos em turismo, gestão
cultural e desenvolvimento sustentável. Além disso, oferecem subsídios para
gestores e organizadores tornarem o carnaval de Diamantina ainda mais inclusivo
e ambientalmente responsável.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Papel dos eventos na dinâmica
do turismo
Os eventos, enquanto manifestações
socioculturais e econômicas, desempenham papel estratégico na dinâmica do
turismo, atuando como catalisadores de fluxos turísticos, promotores da
identidade cultural e indutores do desenvolvimento socioeconômico em destinos
de diferentes escalas (Scalabrini; Dalonso, 2018).
De acordo com a Organização Mundial
do Turismo (WTO, 2014), o setor de eventos alcançou um elevado nível de
consolidação, configurando-se como um dos principais vetores de desenvolvimento
do turismo e como relevante fonte de receitas, geração de empregos e atração de
investimentos. Além de oferecer expressivas oportunidades de negócios, esse
segmento exerce impactos significativos sobre a economia em geral, ao estimular
o consumo, reduzir a sazonalidade, revitalizar destinos, difundir conhecimento
e fomentar a inovação e a criatividade.
Connel e Meyer (2015) ao abordar
sobre a importância econômica do setor de eventos destaca que os eventos assumem papel
estratégico ao atrair visitantes, estimular a ampliação do tempo de permanência
e elevar o gasto médio por turista. Além disso, contribuem para o
fortalecimento da infraestrutura local, projetam o destino como referência turística
e possibilitam que as comunidades anfitriãs valorizem e divulguem suas
singularidades. Paralelamente, atuam como instrumento de captação de
investidores, de geração de novas oportunidades de negócios e de criação de
postos de trabalho na região.
A pandemia de COVID-19 provocou uma crise sem precedentes no turismo de eventos, impactando profundamente esta atividade econômica cuja essência depende da mobilidade e do contato humano. O turismo de eventos e seus subsetores — como transporte, hospedagem, alimentação e lazer — sofreram quedas abruptas na demanda e interrupções generalizadas, em razão das medidas de isolamento social e restrições de circulação impostas globalmente. Estima-se que, em 2020, os fluxos internacionais de turistas tenham caído 22%, com perdas de receita entre 20% e 30%, segundo a (WTO, 2022). Entretanto, dados recentes demostram a recuperação do setor.
Em se tratando do Brasil, de acordo com o Radar Econômico da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (ABRAPE), fundamentado em dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), apenas no primeiro trimestre de 2025 foram gerados 8.202 novos postos formais de trabalho neste setor, representando um aumento de 39% em comparação ao mesmo período de 2024. Este desempenho reflete não apenas a recuperação pós-pandemia da COVID-19, mas também a efetividade de políticas públicas estruturantes, como o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (PERSE). Além disso, considerando as atividades indiretamente impactadas — como hospedagem, alimentação e segurança — houve um crescimento de 20,5% no mesmo período, consolidando o setor de eventos como uma das cadeias produtivas mais dinâmicas da economia. Em termos de consumo, o setor movimentou R$ 34,25 bilhões entre janeiro e março de 2025, com destaque para março, que registrou um recorde histórico de R$ 11,27 bilhões apenas no segmento de recreação. Tais números evidenciam não apenas a capacidade do setor de gerar emprego e renda, mas também sua relevância como vetor de desenvolvimento socioeconômico no Brasil (ABRAPE, 2025).
Getz (2012) ressalta que, além de seu impacto econômico imediato, os eventos desempenham papel relevante no fortalecimento da imagem e da identidade cultural dos destinos. Afinal, os eventos funcionam como vitrines para as tradições locais, a gastronomia, o artesanato e outros elementos que evidenciam a autenticidade regional. A promoção do destino por meio desses eventos contribui para consolidar sua reputação no mercado turístico, ampliando sua visibilidade e incentivando o retorno de visitantes em períodos distintos do ano.
Entretanto, a ausência de planejamento estratégico e de capacitação adequada dos atores envolvidos pode resultar em impactos negativos significativos, comprometendo a experiência turística e a interação entre os diferentes grupos. Entre os efeitos observáveis estão a insatisfação dos visitantes, conflitos ou desgastes na convivência com os moradores e a diminuição da eficácia das empresas, comerciantes e prestadores de serviços locais que compõem o setor turístico, comprometendo tanto a sustentabilidade econômica quanto a imagem e a competitividade do destino (Stokes, 2008).
Esse cenário evidencia a necessidade de um planejamento integrado e participativo, que transcenda os aspectos meramente estruturais e promocionais, incorporando a avaliação sistemática dos níveis de satisfação dos distintos atores envolvidos no processo: turistas, moradores e empresários locais. A compreensão das percepções, expectativas e experiências desses agentes configura-se como um instrumento estratégico para a identificação de lacunas, o aprimoramento da qualidade dos serviços ofertados e a adequação do evento às demandas e especificidades do núcleo receptor e dos visitantes (Silva et al., 2026).
2.2 Sustentabilidade em eventos: dimensões
e desafios
A discussão sobre sustentabilidade em eventos
parte do conceito clássico formulado pelo Relatório
Brundtland (1987), segundo o qual o desenvolvimento
sustentável deve satisfazer as necessidades do presente sem comprometer as
gerações futuras. No campo dos estudos de eventos, esse princípio tem sido
constantemente retomado como base para a adoção de práticas de gestão capazes
de equilibrar benefícios sociais e econômicos com a preservação ambiental e
cultural (Mair; Whitford, 2013).
Tradicionalmente, a
sustentabilidade era abordada a partir de três pilares — econômico, social e
ambiental — no chamado Triple Bottom Line. Entretanto, pesquisas mais recentes têm
ressaltado a necessidade de incluir a dimensão cultural, sobretudo em contextos
de festividades populares, nas quais a preservação da identidade coletiva e a
valorização das tradições desempenham papel central (Chirieleison;
Rizzi, 2023).
A dimensão cultural da
sustentabilidade refere-se à valorização das expressões simbólicas e artísticas
que conferem singularidade a um território. Nos eventos, implica a salvaguarda
das manifestações locais, o estímulo à diversidade cultural e a inclusão da
comunidade como protagonista, não apenas como espectadora (Getz, 2009). A
dimensão social, por sua vez, abrange a capacidade de os eventos promoverem
coesão comunitária, acessibilidade e inclusão, contribuindo para o
fortalecimento do capital social (Smith, 2009). Já a dimensão ambiental está
relacionada à mitigação dos impactos negativos sobre os recursos naturais, considerando
a concentração de público, o aumento da geração de resíduos, o consumo de
energia e a emissão de poluentes (Mair; Whitford,
2013). Por fim, a dimensão econômica remete à geração de renda, empregos e
oportunidades de negócios, desde que acompanhada por uma distribuição
equitativa dos benefícios entre os diferentes agentes envolvidos (Mair; Duffy, 2018).
Apesar da importância crescente
da sustentabilidade, sua implementação em eventos enfrenta múltiplos desafios.
Entre os principais, destacam-se a ausência de conhecimento técnico por parte
de organizadores, os custos adicionais de adoção de soluções sustentáveis, a
dificuldade de selecionar fornecedores comprometidos com critérios
socioambientais e a carência de indicadores claros para a mensuração dos
resultados (Mair; Laing,
2012). Nesse sentido, instrumentos normativos como a ISO 20121, criada para
orientar a gestão sustentável de eventos, representam avanços ao estabelecer
parâmetros para identificar, mitigar e monitorar impactos (International Organization for Standardization,
2024).
A literatura especializada tem
apresentado um conjunto de boas práticas capazes de orientar gestores na busca
pela sustentabilidade em eventos. No âmbito ambiental, destacam-se a coleta
seletiva e a compostagem de resíduos, a redução do uso de plásticos descartáveis,
a eficiência energética e a priorização de transportes coletivos e de baixa
emissão (Chirieleison; Rizzi, 2023). No campo social,
práticas como a adoção de processos participativos de planejamento, a
acessibilidade universal e a valorização do voluntariado têm demonstrado
impactos positivos sobre a coesão comunitária (Mair; Laing, 2012). Em relação à sustentabilidade cultural,
observa-se a relevância de preservar as tradições, apoiar artistas locais e
garantir espaços para manifestações da cultura popular (Mair;
Duffy, 2018). Finalmente, na dimensão econômica, o incentivo à contratação de
fornecedores da região, o fortalecimento do empreendedorismo comunitário e a
transparência na gestão financeira são elementos centrais para garantir
equidade na distribuição dos benefícios (Getz, 2009).
O debate sobre sustentabilidade
em eventos, portanto, deve ser compreendido como multidimensional e
interdependente. Essa abordagem mostra-se particularmente relevante quando
aplicada às festividades populares, como o carnaval de Diamantina, cuja importância
transcende a dimensão do entretenimento, assumindo papel de expressão
identitária, motor econômico e elemento de coesão social.
A aplicação de práticas
sustentáveis nesse contexto é fundamental para assegurar que o carnaval de
Diamantina continue a desempenhar suas funções culturais e sociais, ao mesmo
tempo em que mitiga impactos ambientais e promove benefícios econômicos de forma
mais justa. Nesse sentido, a sustentabilidade das festividades carnavalescas
não apenas garante sua viabilidade futura, mas também reforça seu papel como
patrimônio imaterial e vetor de desenvolvimento local.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma investigação de abordagem mista, combinando procedimentos quantitativos e qualitativos, de natureza descritiva e exploratória (Gil, 2002). A pesquisa descritiva justifica-se pelo objetivo de mapear e analisar atributos específicos do público presente no carnaval de Diamantina e dos agentes econômicos envolvidos, enquanto o caráter exploratório decorre da inexistência de estudos prévios que abordem a sustentabilidade no contexto deste evento.
A abordagem quantitativa buscou mensurar a percepção sobre a sustentabilidade do evento, a partir da aplicação de questionário estruturado, composto por questões fechadas de múltipla escolha e escalas do tipo Likert. Este mesmo questionário continha uma única questão aberta, voltada a sugestões e/ou observações sobre o evento, que constituiu a base da abordagem qualitativa.
No total, foram entrevistados 714 participantes, dos quais 370 eram residentes (51,82%) e 344 visitantes (48,18%). A seleção desse público foi realizada por meio de amostragem aleatória sistemática, adotando-se intervalos fixos a partir de um ponto inicial previamente estabelecido. O critério operacional consistiu em aguardar um intervalo de aproximadamente cinco minutos após o encerramento de cada entrevista antes de abordar um novo participante. A definição desse intervalo baseou-se em observação prévia dos fluxos de circulação, garantindo alternância de perfis socioeconômicos e evitando a concentração de respondentes em agrupamentos momentâneos típicos de eventos de grande movimentação. Paralelamente, foram incluídos 76 empresários locais, selecionados por amostragem intencional, em virtude da necessidade de incluir estabelecimentos representativos de diferentes segmentos do comércio local (alimentação, hospedagem, bares, lojas e serviços), garantindo cobertura das atividades mais impactadas pelo evento.
A coleta de dados ocorreu durante os cinco dias de festividades do carnaval de 2025, em pontos estratégicos da cidade: a Rua da Quitanda, o Mercado Velho, o Beco da Tecla e o Largo Dom João. Residentes e visitantes foram convidados a responder ao questionário de forma voluntária e anônima, enquanto os empresários foram entrevistados em seus estabelecimentos logo após o encerramento do evento.
A análise quantitativa foi realizada de forma descritiva, com a tabulação dos dados em planilhas eletrônicas no software Microsoft Excel, elaboração de tabelas e gráficos e cálculo de frequências e percentuais, a fim de facilitar a interpretação dos resultados. À luz da proposta de análise de conteúdo de Bardin (1979), a análise qualitativa desenvolveu-se a partir de um processo sistemático de leitura e interpretação das sugestões oferecidas pelos entrevistados, seguido de sua categorização e organização em um quadro analítico. Esse quadro foi estruturado segundo as quatro dimensões da sustentabilidade (cultural, ambiental, social e econômica), possibilitando uma compreensão mais abrangente e articulada do conteúdo investigado.
A integração entre os métodos quantitativo e qualitativo conferiu maior profundidade à análise, permitindo não apenas identificar a percepção geral dos participantes, mas também compreender os significados, tensões e propostas de aprimoramento relacionadas ao evento.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1 Sustentabilidade cultural
Os participantes foram questionados se o carnaval de Diamantina contribui positivamente para a cultura local, considerando o grau de preservação ou de descaracterização das manifestações carnavalescas tradicionais. A análise quantitativa revelou uma percepção amplamente favorável quanto à contribuição do carnaval de Diamantina para a cultura local, tanto entre moradores quanto entre visitantes. Entre os moradores, 84% afirmaram concordar totalmente que o evento contribui positivamente para a cultura, e 11% concordar parcialmente, ao passo que apenas 5% manifestaram posicionamentos neutros ou de discordância. Já entre os visitantes, o resultado foi semelhante: 87% concordaram totalmente, 6% parcialmente, 3% discordaram e 2% permaneceram neutros (Figura 1).
Figura 1. Percepção dos entrevistados
sobre a valorização da cultura local no Carnaval de Diamantina

Fonte: Elaboração própria com base em
dados da pesquisa.
Esses resultados evidenciam que o carnaval é amplamente reconhecido como um elemento de fortalecimento cultural, valorizado tanto por aqueles que vivenciam a cidade cotidianamente quanto por aqueles que a frequentam como destino turístico. A convergência das percepções entre moradores e visitantes sugere que o evento tem conseguido equilibrar o apelo turístico com a manutenção de práticas culturais tradicionais, mitigando o risco de descaracterização comumente associado à mercantilização de festas populares (Smith, 2009).
Contudo, a análise qualitativa dos comentários dos entrevistados permite um aprofundamento interpretativo. Muitas falas apontam para a importância de maior inclusão e valorização de músicos e artistas locais, reforçando o desejo de que a festa continue a se afirmar como espaço de expressão cultural genuinamente diamantinense. Nesse mesmo sentido, foi recorrente a menção à necessidade de resgatar tradições, como o retorno das escolas de samba e dos bonecos nos blocos, além do incentivo à maior participação dos blocos de rua, considerados pilares da autenticidade carnavalesca. Esse aspecto relaciona-se com a literatura que defende que festivais devem promover a pluralidade cultural e a representatividade de diferentes identidades artísticas, fortalecendo a coesão social e reduzindo processos de exclusão simbólica (Mair; Duffy, 2018).
Outro aspecto destacado refere-se à Bartucada, ícone simbólico do carnaval de Diamantina, cuja ampliação do número de apresentações foi sugerida como forma de fortalecer o vínculo identitário da festa. Além disso, surgiram críticas em relação à instalação de camarotes no espaço do Mercado Velho, apontada como prática que pode restringir o acesso democrático à um bem público e acentuar a lógica da comercialização em detrimento do caráter popular do evento.
Dessa forma, observa-se que o carnaval de Diamantina é amplamente reconhecido como um patrimônio cultural vivo, mas ao mesmo tempo suscita reflexões críticas sobre sua gestão, inclusão e autenticidade. Enquanto os dados quantitativos revelam a aprovação da festa como expressão identitária, as sugestões qualitativas sinalizam demandas por um modelo de organização que garanta maior espaço às tradições, à comunidade local e à diversidade artística, favorecendo a construção de um evento culturalmente sustentável.
4.2 Sustentabilidade social
A pesquisa também investigou a percepção dos participantes acerca do potencial do carnaval de Diamantina para promover a inclusão social e a diversidade. Entre os moradores, 66% afirmaram concordar totalmente com essa proposição e 24% parcialmente, enquanto apenas 7% manifestaram discordância e 4% permaneceram neutros. Entre os visitantes, 69% concordaram totalmente e 15% parcialmente, ao passo que 4% expressaram discordância e 11% mantiveram posição neutra. Esses resultados indicam que tanto moradores quanto visitantes percebem o carnaval como um espaço plural e integrador, capaz de reunir diferentes segmentos sociais, faixas etárias e identidades culturais (Figura 2).
Figura 2. Percepção dos entrevistados
sobre a promoção da inclusão social e da diversidade pelo Carnaval de
Diamantina

Fonte: Elaboração própria com base em
dados da pesquisa.
Contudo, a análise qualitativa das sugestões apresentadas pelos entrevistados evidencia nuances importantes. Diversas falas destacaram a necessidade de retomar o palco principal para o Largo Dom João e de diversificar os espaços de realização da festa. Essas percepções dialogam com estudos que ressaltam a importância da ocupação simbólica dos espaços urbanos em eventos festivos, nos quais a organização territorial influencia diretamente a sensação de pertencimento e participação coletiva (Mair; Whitford, 2013).
Além disso, surgiram sugestões vinculadas ao impacto socioeconômico do evento, como a solicitação de mais investimentos e facilidades para a população local trabalhar durante o período carnavalesco. Esse ponto corrobora reflexões de Getz (2010), que interpreta os festivais como plataformas de desenvolvimento econômico local, mas que devem ser planejados de modo a equilibrar a lógica comercial com os benefícios comunitários.
Outra observação recorrente foi a necessidade de preços de alimentação mais acessíveis e a proposta de liberação do acesso com cooler, sugerindo que a percepção de sustentabilidade também está associada à equidade socioeconômica. Restrições nesse sentido podem ser vistas como barreiras econômicas que dificultam a plena participação popular, conforme discutem autores que analisam a tensão entre espetacularização comercial e acessibilidade cidadã em festas populares (Pereira, 2018; Mendes et al., 2025). Como destacam Andersson & Getz (2009), os festivais que restringem a participação plena em função de barreiras financeiras tendem a gerar exclusões simbólicas e materiais, comprometendo sua legitimidade comunitária.
Assim, embora o carnaval de Diamantina seja amplamente reconhecido como um espaço de inclusão e diversidade, persistem expectativas por um modelo de organização que fortaleça a gestão democrática do espaço urbano, valorize artistas locais, amplie a diversidade de atrações e assegure condições socioeconômicas equitativas para a população.
4.3 Sustentabilidade ambiental
A percepção dos participantes quanto à infraestrutura do carnaval de Diamantina apresentou também resultados bastante positivos. Entre os moradores, 34% classificaram a infraestrutura como excelente e 46% como boa, totalizando 80% de avaliações favoráveis. Apenas 17% a consideraram regular, e uma pequena parcela (4%) avaliou como ruim ou péssima. Entre os visitantes, as percepções foram semelhantes: 36% classificaram como excelente e 44% como boa, enquanto 18% a consideraram regular e apenas 2% a avaliaram negativamente (Figura 3).
Figura 3. Avaliação dos entrevistados
quanto à infraestrutura geral do Carnaval de Diamantina

Fonte: Elaboração própria com base em
dados da pesquisa.
A convergência entre moradores e visitantes indica um elevado nível de satisfação com aspectos fundamentais à sustentabilidade ambiental do evento, como transporte, banheiros, gestão de resíduos, preservação do patrimônio histórico, segurança e limpeza. Essa avaliação sugere que as transformações estruturais recentes no Carnaval têm sido percebidas como eficazes, sobretudo no que se refere ao equilíbrio entre a fruição festiva e a manutenção da ordem urbana.
No entanto, as sugestões dos entrevistados permitem aprofundar essa interpretação, evidenciando aspectos que, embora não comprometam a avaliação geral favorável, indicam pontos de melhoria para a gestão do evento.
Entre as sugestões, destacou-se a demanda por mais banheiros e pelo aumento da quantidade de lixeiras, o que reflete preocupações com a infraestrutura básica em momentos de alta concentração de público. Esses apontamentos reforçam a ideia de que a experiência do visitante em eventos está diretamente relacionada à eficiência dos serviços de apoio, como saneamento e gestão de resíduos, considerados dimensões essenciais da sustentabilidade em festivais (Mair; Whitford, 2013; Mair; Laing, 2012).
Vale destacar que, a percepção positiva sobre limpeza, segurança e preservação do patrimônio histórico é particularmente relevante no caso de Diamantina, cidade reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, onde o carnaval ocorre em um cenário de elevada sensibilidade ambiental e cultural. Conforme aponta Marchezini et al. (2018) a gestão de eventos em cidades históricas deve conciliar o uso turístico e festivo do espaço urbano com a necessidade de preservação dos bens patrimoniais, evitando processos de degradação.
4.4 Sustentabilidade econômica
A análise da sustentabilidade econômica do carnaval de Diamantina foi baseada na percepção de 76 empresários locais. Os resultados revelam que o evento desempenha um papel relevante para a dinamização da economia urbana. Quando questionados sobre o impacto do carnaval em seus estabelecimentos, 29% classificaram o efeito como muito positivo, em razão do aumento expressivo no movimento e no faturamento, e 36% como positivo, refletindo crescimento moderado nas vendas. Em conjunto, esses resultados indicam que 65% dos empresários experimentaram ganhos econômicos significativos durante o período festivo. Por outro lado, 25% relataram impacto neutro, enquanto 10% (5% negativo e 5% muito negativo) apontaram perdas relacionadas a queda no faturamento ou dificuldades operacionais (Figura 4).
Figura 4. Avaliação dos empresários
locais quanto aos impactos do Carnaval 2025 em seus negócios

Fonte: Elaboração própria com base em
dados da pesquisa.
O percentual
de aumento nas vendas reforça a relevância do Carnaval como vetor econômico.
Observa-se que, embora uma parte expressiva tenha registrado aumentos modestos
(31% até 10% e 12% até 20%), mais de 35% relataram incrementos superiores a
40%, incluindo 6% que alcançaram aumentos entre 100% e 200% e 3% com
crescimento superior a 200%. Esse cenário demonstra que, além de movimentar
amplamente a economia local, o carnaval gera oportunidades de crescimento
expressivo para determinados segmentos, sobretudo aqueles diretamente
integrados ao circuito festivo e turístico (Figura 5).
Figura 5. Avaliação dos empresários
sobre o percentual aproximado de aumento nas vendas

Fonte: Elaboração própria com base em
dados da pesquisa.
Em termos de
expectativas futuras, a percepção empresarial é majoritariamente otimista: 51%
afirmaram que pretendem investir mais no próximo carnaval, enquanto 39%
condicionaram seus investimentos a resultados futuros. Apenas 10% declararam
não ter intenção de ampliar sua participação. Esse dado evidencia que a
confiança dos empresários na sustentabilidade econômica do evento permanece
elevada, o que tende a estimular a circulação de capital e a geração de emprego
e renda nos próximos anos (Figura 6).
Figura 6. Percepção dos empresários
quanto à intenção de ampliar os investimentos no próximo Carnaval, a partir da
experiência deste ano

Fonte: Elaboração própria com base em
dados da pesquisa.
Os resultados encontrados dialogam com estudos que destacam os eventos culturais como instrumentos de fortalecimento das economias locais, especialmente em cidades de pequeno e médio porte que possuem forte apelo turístico (Silva et al., 2026; Getz, 2012; Richards, 2011). No caso de Diamantina, a economia do carnaval reforça o conceito de economia da experiência (Pine & Gilmore, 1999), na medida em que o valor agregado ao evento não se restringe ao consumo de bens tangíveis, mas está atrelado à vivência cultural, à hospitalidade local e ao uso simbólico do patrimônio histórico.
Por outro lado, o fato de 25% dos empresários perceberem impacto neutro e 10% impactos negativos sugere que os benefícios econômicos do carnaval não são uniformemente distribuídos entre os diferentes setores comerciais. Conforme argumenta Mendes et al. (2025), a concentração de fluxos de consumo em determinados territórios e tipos de negócio pode acentuar desigualdades locais e até gerar tensões socioeconômicas. Nesse sentido, a sustentabilidade econômica do carnaval de Diamantina dependerá também da adoção de políticas que favoreçam a inclusão de pequenos comerciantes e empreendedores periféricos, ampliando os circuitos de redistribuição da renda gerada pelo evento.
5.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo
analisou as transformações estruturais do carnaval de Diamantina e suas
implicações para a sustentabilidade, a partir de uma abordagem multidimensional
que integrou percepções culturais, sociais, ambientais e econômicas de
moradores, visitantes e empresários locais. Os resultados evidenciaram que o
evento apresenta desempenho positivo nas quatro dimensões, embora persistam
tensões relacionadas à distribuição dos benefícios, à preservação da
autenticidade cultural e à gestão do espaço urbano em contexto patrimonial.
Do ponto de vista
teórico, ao analisar simultaneamente as dimensões cultural, social, ambiental e
econômica do carnaval de Diamantina, a pesquisa contribui para preencher uma
lacuna do conhecimento relativa à compreensão de eventos culturais em sítios
patrimoniais, nos quais as pressões turísticas, as dinâmicas comunitárias e as
limitações físicas do território interagem de forma particularmente complexa.
Além disso, ao integrar evidências quantitativas e qualitativas, o estudo
reforça a pertinência de abordagens mistas para investigações sobre
sustentabilidade em eventos culturais, oferecendo um arcabouço analítico
replicável para outros contextos.
Sob a perspectiva
prática, os resultados fornecem subsídios valiosos para gestores públicos,
organizadores de eventos e atores do trade turístico. Entre as
recomendações emergentes destaca-se a necessidade de fortalecer espaços de
participação comunitária na definição da programação e das estratégias
operacionais; ampliar mecanismos de inclusão social, reduzindo barreiras
econômicas e espaciais, tais como a proliferação de camarotes; e aprimorar a
gestão ambiental por meio da expansão de infraestrutura de apoio, sobretudo em
áreas historicamente sensíveis. Recomenda-se ainda a adoção de políticas de
fomento que reduzam a concentração dos benefícios econômicos, estimulando a
participação de pequenos empreendedores e distribuindo de forma mais
equilibrada os fluxos gerados pelo evento.
Como limitações,
destaca-se que o estudo foi realizado em uma única edição do carnaval e
restringido ao território urbano central, o que limita a generalização dos
resultados. Para pesquisas futuras, sugere-se a realização de análises
longitudinais que permitam avaliar a evolução das percepções ao longo do tempo,
bem como estudos comparativos com outros carnavais de cidades históricas
brasileiras ou internacionais, possibilitando identificar padrões, contrastes e
boas práticas de sustentabilidade em contextos patrimoniais.
Em síntese, o
trabalho demonstra que, embora o carnaval de Diamantina se apresente como um
evento com forte potencial de sustentabilidade, sua consolidação a longo prazo
depende do contínuo equilíbrio entre valorização cultural, inclusão social,
mitigação de impactos ambientais e distribuição equitativa dos benefícios
econômicos.
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[1] Doutor em Turismo. Docente do Curso de
Bacharelado em Turismo. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e
Mucuri-UFVJM (Diamantina, Minas Gerais, Brasil).
[2] Discente do Curso de Bacharelado em
Turismo. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri-UFVJM
(Diamantina, Minas Gerais, Brasil).
[3] Discente do Curso de Bacharelado em
Turismo. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri-UFVJM
(Diamantina, Minas Gerais, Brasil).