Recebido em: 13.03.2026
Aprovado em: 10.04.2026
Avaliado pelo: Sistema Double Blind Review
PERFIL DOS VISITANTES E PRÁTICAS DE LAZER E TURISMO NO POÇO DAS COBRAS (TINGUÁ, NOVA IGUAÇU/RJ)
VISITOR PROFILE AND LEISURE AND TOURISM ACTIVITIES AT POÇO DAS COBRAS (TINGUÁ, NOVA IGUAÇU/RJ)
Maria Angélica Maciel Costa1
E-MAIL: mangelicamc@ufrrj.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1156-5459
Gabriella Sena de Lima2
E-MAIL: gwbriella@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0009-0002-6067-7104
Isabela de Fátima Fogaça3
E-MAIL: isabelafogaca@ufrrj.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1704-5435
RESUMO
O estudo analisa o perfil dos visitantes e as práticas de lazer e turismo no Poço das Cobras, localizado em Tinguá, Nova Iguaçu (RJ), área inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tinguá e de relevante potencial turístico. A pesquisa teve como objetivo compreender as características dos frequentadores, suas motivações, formas de uso do espaço e percepções sobre a infraestrutura e os serviços oferecidos. Para isso, realizou-se revisão bibliográfica, observação em campo, entrevistas com moradores e comerciantes e aplicação de 101 formulários de pesquisa de demanda entre dezembro de 2025 e março de 2026. Os resultados revelam que o atrativo é utilizado predominantemente por moradores de Nova Iguaçu e municípios da Baixada Fluminense, com destaque para adultos e idosos de baixa renda que buscam lazer em contato com a natureza e amenização das altas temperaturas. O banho em águas naturais constitui a principal atividade desenvolvida, enquanto a gratuidade do acesso fortalece o papel do local como espaço democrático de lazer. Apesar do elevado índice de satisfação e do reconhecimento de seu potencial turístico, foram identificados desafios relacionados à acessibilidade, infraestrutura, ordenamento territorial e impactos ambientais decorrentes da ocupação irregular das margens do rio. Conclui-se que o Poço das Cobras desempenha importante função social e turística para a região, demandando ações de gestão pública que conciliam conservação ambiental, qualificação da infraestrutura e integração aos roteiros turísticos locais.
Palavras-chave: Pesquisa de demanda; Lazer; Poço das Cobras; Tinguá; Nova Iguaçu (RJ).
ABSTRACT
This study analyzes the visitor profile and leisure and tourism practices at Poço das Cobras, located in Tinguá, Nova Iguaçu (Rio de Janeiro, Brazil), within the Tinguá Environmental Protection Area, a site with significant tourism potential. The research aimed to identify visitors' characteristics, motivations, patterns of use, and perceptions regarding the site's infrastructure and services. The methodology combined a literature review, field observations, interviews with local residents and business owners, and the application of 101 visitor surveys conducted between December 2025 and March 2026. The findings indicate that the site is mainly frequented by residents of Nova Iguaçu and other municipalities in the Baixada Fluminense region, particularly low-income adults and older adults seeking leisure opportunities in natural environments and relief from high temperatures. Swimming in natural waters was identified as the primary recreational activity, while free access reinforces the site's role as a democratic public leisure space. Despite high visitor satisfaction and broad recognition of its tourism potential, challenges related to accessibility, infrastructure, territorial management, and environmental impacts caused by irregular occupation of riverbanks were identified. The study concludes that Poço das Cobras plays an important social and tourism role in the region, highlighting the need for public policies that reconcile environmental conservation, infrastructure improvements, and integration into local tourism routes.
Keywords: Visitor survey; Leisure; Poço das Cobras; Tinguá; Nova Iguaçu (RJ)..
O Poço das Cobras é uma pequena piscina de águas naturais, localizada na Unidade Regional de Governo (URG) de Tinguá, no município de Nova Iguaçu, estado do Rio de Janeiro (RJ), área integrante da Área de Proteção Ambiental (APA) do Tinguá, território contíguo à Reserva Biológica do Tinguá (REBIO Tinguá) - unidade de conservação (UC) cuja categoria de proteção integral impõe restrições mais severas ao uso público, especialmente para preservação dos mananciais de água ali presentes.
A abundância de água na região e as restrições de acesso aos rios e às cachoeiras no interior da REBIO Tinguá fizeram com que seu entorno, especialmente na área que compõe a APA do Tinguá, fosse repleto de sítios de lazer, cujo principal apelo é o uso recreativo da água. Tais sítios de lazer são áreas privadas de lazer e turismo que recebem milhares de pessoas, nos meses de verão e aos fins de semana de calor ao longo do ano, seja para uso do território como segunda residência, seja para day use na dezena de sítios abertos ao público, por meio do pagamento de um ingresso.
Esta pesquisa tem como objetivo analisar o perfil dos visitantes do Poço das Cobras e justifica-se por múltiplos fatores. Em primeiro lugar, a literatura e a cobertura midiática sobre a Baixada Fluminense, frequentemente, associam a água a problemáticas como abastecimento precário e enchentes recorrentes (Costa e Ioris, 2015), silenciando aspectos positivos, a exemplo do potencial hídrico para abastecimento doméstico da capital fluminense (Britto et al., 2016) e da existência de cursos d'água preservados onde a população da Baixada Fluminense aproveita para se refrescar em dias de calor extremo.
De forma geral, quando as temperaturas estão altas, as pessoas tendem a evitar locais com pouca arborização e excesso de prédios e asfalto, fatores que aumentam a sensação térmica. Em contrapartida, procuram locais mais frescos e com possibilidades para banho e visitas em seus momentos de lazer. Ademais, a região configura-se como uma "ilha de calor" (Lucena et al., 2015), o que intensifica a procura da população por espaços que ofereçam amenidade térmica e possibilidades de banho durante períodos de altas temperaturas, especialmente em feriados e férias.
Como segundo argumento, o fato de o Poço das Cobras estar em área pública (apesar do acesso ser feito pelos bares que se instalaram na beira do rio), portanto, de acesso mais democrático à população da região, que é carente de áreas de lazer, e se constituir em um território de interesse turístico, por parte da gestão pública municipal, que vem investindo na estruturação do Parque Histórico e Arqueológico Iguassú Velha (PHAIV) na URG Tinguá. O PHAIV localiza-se no caminho de acesso ao bairro Tinguá e é um importante atrativo cultural que valoriza o patrimônio histórico e arqueológico de Nova Iguaçu. Este possui aportes de recursos públicos e privados e vem se apresentando como um “projeto âncora” de estímulo ao desenvolvimento do turismo em seu entorno, especialmente nos segmentos de Ecoturismo, Turismo Rural e Cicloturismo. Neste sentido, esta é uma área bastante suscetível à intervenção pública e que demanda dados para a tomada de decisão. Ademais, Tinguá é uma das áreas da Região Turística Baixada Verde onde já se observa um fluxo turístico - a Baixada Verde foi criada em 2017 e é composta por dez municípios da Baixada Fluminense, Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
O estudo está vinculado aos projetos "Uso recreativo da água na região turística Baixada Verde (RJ): potencialidades e conflitos" e “Estudos para uma proposta preliminar de Plano de Desenvolvimento Turístico do Parque Histórico Arqueológico Iguassú Velha” desenvolvidos no Observatório de Turismo e Lazer da Região Turística Baixada Verde, um grupo de pesquisa de extensão do curso de Turismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A abordagem teórica que contextualiza a investigação fundamenta-se na perspectiva da Ecologia Política da Água (Acselrad, 2004; Swyngedouw, 2004), que permite analisar as relações de poder, os conflitos socioambientais e as desigualdades no acesso e no uso dos recursos hídricos, bem como do Desenvolvimento Territorial, na perspectiva regionalista (Santos, 1996).
Para atingir os objetivos propostos, foram realizadas pesquisas bibliográficas nas principais plataformas acadêmicas (SciELO, Scopus, Google Acadêmico), utilizando-se como palavras-chave termos como lazer, turismo, água, cachoeira, uso turístico-recreativo da água, Baixada Verde e Baixada Fluminense. A metodologia também incluiu a aplicação, in loco, de formulários de pesquisa de demanda aos frequentadores dos poços, visando traçar o perfil dos usuários, suas motivações e percepções sobre a qualidade da água, a infraestrutura e as práticas de lazer.
O formulário contou com 35 perguntas, sendo 3 abertas e 32 fechadas. As aplicações ocorreram nos dias: 12 de dezembro de 2025, quando foi possível coletar 28 respostas; 09 de janeiro de 2026, 35 respostas; 14 de janeiro de 2026, 28 respostas; e 06 de março de 2026, 10 respostas; totalizando 101 formulários respondidos.
Ademais, as análises e resultados ainda tiveram como base a observação em campo e entrevistas não-estruturadas com comerciantes e moradores da região.
O Poço das Cobras é uma pequena piscina de águas naturais que faz limite com a REBIO Tinguá. Este é o primeiro de uma sequência de poços formados pelas águas do rio Tinguá. Poucos metros a jusante, é possível encontrar outros poços, todos ladeados por estabelecimentos comerciais. Esses empreendimentos foram construídos em áreas onde deveria existir mata ciliar, configurando uma intervenção antrópica significativa no ecossistema local e ocupação desordenada (Figura 1).
Os bares ali instalados oferecem música ambiente, frequentemente com estilos como funk ou pagode, além da comercialização de bebidas e alimentos, tais como biscoitos, salgados e porções diversas. O acesso a esses espaços é gratuito, sendo vedada a entrada com bebidas não adquiridas nos estabelecimentos.
Paradoxalmente à realidade descrita, o poço localiza-se na APA do Tinguá, UC que abrange aproximadamente 5.400 hectares e foi criada pelos decretos municipais nº 6.491/2002 e nº 6.548/2002 e ratificada pelo Projeto de Lei nº 3.587/2004 com o objetivo de proteger o conjunto natural e paisagístico local, com ênfase na proteção dos mananciais formadores das bacias dos rios Tinguá e Iguaçu (Nova Iguaçu, 2004).
Figura 1 – Acesso ao curso d’água pelos bares (Tinguá/NI)
Fonte: Acervo pessoal, 2025.
Os bares ali instalados oferecem música ambiente, frequentemente com estilos como funk ou pagode, além da comercialização de bebidas e alimentos, tais como biscoitos, salgados e porções diversas. O acesso a esses espaços é gratuito, sendo vedada a entrada com bebidas não adquiridas nos estabelecimentos.
Paradoxalmente à realidade descrita, o poço localiza-se na APA do Tinguá, UC que abrange aproximadamente 5.400 hectares e foi criada pelos decretos municipais nº 6.491/2002 e nº 6.548/2002 e ratificada pelo Projeto de Lei nº 3.587/2004 com o objetivo de proteger o conjunto natural e paisagístico local, com ênfase na proteção dos mananciais formadores das bacias dos rios Tinguá e Iguaçu (Nova Iguaçu, 2004).
Ademais, é uma região de interesse turístico que faz parte da região turística Baixada Verde, que se caracteriza por seu expressivo patrimônio natural, abrigando 88 UCs que resguardam nascentes e cursos d'água com potencial para uso turístico recreativo das águas.
Como resultado da pesquisa de demanda realizada, foi visto que em relação ao perfil do frequentador do Poço das Cobras, a maior parcela dos respondentes possui entre 41 e 50 anos (30,7%), seguida por 51 e 60 anos (21,8%) e mais de 60 anos (20,8%). Ou seja, mais da metade do público é composta por adultos (59,5%) e idosos (20,8%). Ademais, se identificam com o gênero feminino (50,5%), se autodeclaram pardos (52,5%) e pretos (26,7%), são solteiros (51,5%), possuem ensino médio completo (39,6%) e renda familiar de 1 a 2 salários mínimos (38,6%). A maioria alegou não possuir deficiência ou mobilidade reduzida (88,1%), contudo, entre os que possuem, destaca-se a mobilidade reduzida (7%).
É possível perceber que o perfil apresentado difere do perfil do usual do frequentador de áreas naturais ou ecoturista, que, de acordo com a Pesquisa de Perfil do Turista de Aventura e do Ecoturismo no Brasil (MTur, 2009) é, principalmente, de jovens de 18 a 29 anos, com ensino superior e de classe social B, o que compreendemos como classe média alta, pois tem um bom poder aquisitivo, mas sem os luxos da classe A.
No que diz respeito à origem do visitante, apesar da maioria ser morador de Nova Iguaçu (58,4%), há visitantes de diferentes municípios, especialmente da Baixada Fluminense, com destaque para Belford Roxo (16,8%) e São João de Meriti (6,9%). Dentre a parcela que reside em Nova Iguaçu, 20,3% é morador da URG Tinguá, que abriga o atrativo, e 18,6% da URG Miguel Couto, região próxima a Tinguá. Com isso, percebe-se que o local ainda é utilizado principalmente por iguaçuanos, especialmente pelos que residem nas cercanias do atrativo.
Os respondentes também alegaram que costumam visitar outros lugares de natureza (71,3%) e, ao citarem quais locais visitam, cerca de ⅓ (31,9%) mencionaram outras áreas naturais localizadas na URG Tinguá. Acredita-se que isso se deve ao fato de que outros lugares de natureza se encontram em URGs mais distantes, como o Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, localizado na URG Centro, o que dificulta o acesso de residentes de Tinguá, que dispõe de transporte público precário.
Os visitantes informaram ter conhecido o Poço das Cobras através de indicações de terceiros (71,3%) ou por serem moradores (23,8%), ou seja, a divulgação do espaço por outros meios, como redes sociais, entre outros, é praticamente nula, o que provavelmente contribui para a baixa presença de jovens no atrativo. Como motivação para frequentar o local, indicaram o lazer e a recreação na natureza (31,7%) e o clima ameno/fugir do calor (24,8%).
Os respondentes afirmaram que o local possui potencial turístico (89,1%) e são assíduos frequentadores, frequentando o Poço das Cobras todo mês (29,7%) ou toda semana (22,8%), especialmente no turno matutino (83,2%) e vespertino (72,3%) - o período noturno conta com menos adeptos (19,8%) -, predominando, assim, o número de visitantes que permanecem no local por mais de 6 horas (40,6%).
Frequentam o atrativo acompanhado de família (51,5%) e amigos (26,7%), em grupos de até 3 pessoas (53,6%). Apenas 10,9% alegaram ter se hospedado no município, dentre eles aproximadamente ⅔ (63,6% ou 7 respondentes) são moradores de Nova Iguaçu, os outros 36,4% (4 respondentes) são dos municípios de Belford Roxo, Nilópolis, Paraty e Rio de Janeiro, todos no estado do Rio de Janeiro.
Para chegar ao local, utilizam principalmente o carro próprio (40,6%), o que acarreta o estacionamento desordenado em ambos os lados da Estrada da Administração, via que dá acesso direto à cachoeira, ocasionando congestionamentos. Segundo observações de campo e informações coletadas em entrevistas com comerciantes e moradores da região, verificou-se que, especialmente nos finais de semana, no verão e durante o período de férias, ocorre congestionamento e sobrecarga das vias urbanas (muitas delas estreitas e sem pavimentação) em razão do intenso fluxo de excursionistas e veículos que trazem os visitantes.
Uma solução seria o acesso ao atrativo de ônibus, segundo o meio de transporte mais utilizado pelos visitantes (27,7%), contudo, há muitas queixas acerca do transporte público que circula na região, tanto em relação ao estado de conservação quanto no que tange à quantidade de veículos disponíveis para circulação.
As principais atividades realizadas no Poço das Cobras são: banho (92,1%) e caminhada (15,8%). Além disso, foi questionado se os respondentes realizam outras atividades relacionadas a lazer e turismo no município de Nova Iguaçu, a maioria alegou que sim (63,4%), sendo essas relacionadas aos equipamentos de lazer, como shoppings, bares e restaurantes, com 69,8%, ou com o comércio local, com 47,6%; os atrativos naturais e culturais apresentaram 39,7% e 15,9% respectivamente.
Em função da recente estruturação do PHAIV na região (criado em junho de 2022), e deste ter como uma de suas missões “... fomentar o desenvolvimento econômico … por meio de ações de planejamento direcionadas a incentivar a implementação de atividades econômicas, especialmente nas áreas de serviço e turismo…” (Nova Iguaçu, 2022), buscou-se na pesquisa compreender se os visitantes do Poço das Cobras tinham conhecimento acerca deste parque histórico arqueológico. O objetivo aqui foi compreender se o Poço das Cobras já está integrado a possíveis circuitos turísticos do PHAIV ou se há possibilidade desta integração. Assim, 66,3% dos respondentes informaram que já tinham ouvido falar/conheciam o PHAIV. Entre eles, já haviam visitado o atrativo 31,3%. Entre os que não visitaram (68,7%), 73,9% possuíam interesse em visitar. Portanto, já existe certa integração com o PHAIV e há importante potencial para a composição dos atrativos naturais e culturais em circuitos de visitação.
Entre os serviços, infraestrutura e equipamentos avaliados, a maioria foi classificada como “bom” (acesso e sinalização externa; limpeza; segurança; presença de placas - que foi avaliada igualmente como boa e regular; qualidade da água; segurança para realizar atividades de banho; pontos de apoio; e comércio). Foram avaliados como “excelente” somente os atrativos naturais e a beleza cênica do local, já como “péssimo”, a acessibilidade. Os visitantes não souberam avaliar a qualidade das trilhas, pois a maioria não realizou esse tipo de atividade. Da mesma forma, não souberam avaliar a hospedagem (contudo, entre os que se hospedaram, prevalece a avaliação “boa”).
A maior parte dos respondentes alegou que gostaria de ter encontrado algum serviço no local (56,4%), sendo estes, sobretudo: acessibilidade, primeiros socorros e guarda-vidas, e pontos de apoio, como banheiros, bancos e bebedouros. Como sugestão de melhoria, única pergunta não obrigatória, destacaram-se a acessibilidade e o acesso.
Por fim, 98% dos respondentes afirmaram que voltariam e recomendariam o local para terceiros, o que indica alto grau de satisfação com o atrativo. Entre os que não voltariam ou recomendariam, destacam-se a qualidade da água e a limpeza do local como os principais motivos da insatisfação.
O Poço das Cobras consolida-se como uma alternativa de lazer de baixo custo para a população da Baixada Fluminense, território que, apesar da expressiva presença de áreas verdes protegidas, carece de espaços públicos estruturados para o uso recreativo. Neste poço, a gratuidade atua como um fator que democratiza o acesso ao lazer, se comparado aos sítios de lazer privados que cobram entrada, tornando o local um "ponto de resfriamento" vital para famílias com renda de 1 a 2 salários mínimos que buscam mitigar os efeitos das ilhas de calor urbanas. Ou seja, a gratuidade é o que garante o acesso ao lazer como um direito social em um território de periferia urbana.
Contudo, essa configuração materializa as tensões da Ecologia Política da Água: embora o recurso seja público e seu acesso teoricamente democrático, a prática recreativa de fato é mediada por relações de poder locais, onde bares instalados irregularmente em áreas de mata ciliar exercem um controle de acesso sobre o território. Ao cercarem o espaço e restringirem o consumo de produtos externos, esses estabelecimentos promovem uma privatização indireta de um bem de uso comum (a água). Tal cenário reforça a urgência de uma intervenção pública ordenada, de modo a garantir o acesso sem restrições a este bem comum.
A pesquisa evidencia a relevância do Poço das Cobras para o lazer e o turismo em Nova Iguaçu e região, bem como a urgente necessidade de intervenção da gestão pública municipal, estabelecendo normas de conduta para os bares que hoje "mediam" o acesso, visando mitigar impactos como o lançamento de esgoto, o acúmulo de lixo, a ocupação desordenada das margens dos rios com construções irregulares, estacionamento excessivo de veículos, dentre outros.
Ainda, recomenda-se uma ação coordenada entre poder público e agentes de turismo locais, como guias e condutores de turismo, buscando a integração do Poço das Cobras aos circuitos do Parque Histórico e Arqueológico Iguassú Velha (PHAIV) por meio de um roteiro turístico, transformando o potencial identificado por 89,1% dos visitantes em um vetor de desenvolvimento territorial regional. Os investimentos no PHAIV, que objetivam o desenvolvimento regional pelo turismo, somados à demanda cada vez mais crescente de locais de lazer que atuem como pontos de resfriamento à população durante as ondas de calor, lançam luz à emergência de reais intervenções.
Tinguá revela-se, portanto, um território de fundamental importância para a consolidação da região turística Baixada Verde, a despeito dos estigmas sociais historicamente associados à "Baixada Fluminense" (Enne, 2004). Espera-se que esta pesquisa possa contribuir com esta nova fase da relação do território com o turismo.
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SWYNGEDOUW, Erik. Social Power and the Urbanization of Water: Flows of Power. Oxford Geographicaland Environmental Studies, 2004.
1Doutora em Planejamento Urbano e Regional, Mestre em Geografia e Bacharel em Turismo. Docente na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/4898229657335579.
2Especialista em Ecoturismo e Bacharel em Turismo. Mestranda em Patrimônio, Cultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/8245336506336167.
3Doutora em Geografia; Mestre em Turismo e Hotelaria; Bacharel em Turismo e Licenciada em Geografia. Docente na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/1731543706249446.