Recebido em: 13.03.2026
Aprovado em: 10.04.2026
Avaliado: Sistema Double Blind Review
Entre avanços e desafios: um estudo comparativo da acessibilidade na Praia de Ponta Negra (RN)
Between Advances and Challenges: A Comparative Study of Accessibility at Ponta Negra Beach (RN)
Pedro Henrique Bezerra da Silva1
E-MAIL: pedrohenrique.bezrraa@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4467-706X
Maria Vitória dos Santos Borges2
E-MAIL: vitoriasborges07@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6188-1964
Antônio Jânio Fernandes3
E-MAIL: janiofernandes@uern.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9624-9278
RESUMO
O turismo consolidou-se como um dos setores mais lucrativos globalmente, atuando como vetor de desenvolvimento e inclusão social. Diante disso, debates sobre o turismo acessível buscam garantir a autonomia e a democratização do acesso de pessoas com deficiência (PCD) ou mobilidade reduzida aos destinos. Este artigo apresenta um estudo qualitativo e exploratório que analisa comparativamente os relatórios de acessibilidade da Praia de Ponta Negra (RN) desenvolvidos pelo Observatório Potiguar de Inovação do Turismo (OPOTUR) nos anos de 2024 e 2025. O levantamento de 2024 contou com 100 respondentes (exclusivamente PCD ou com mobilidade reduzida), enquanto o de 2025 foi ampliado para 304 participantes (incluindo pessoas sem deficiência). Os resultados indicam uma sutil melhora na percepção geral positiva da acessibilidade local, que subiu de 20,4% para 35,2%. Contudo, a maioria dos entrevistados em ambos os anos (79,6% em 2024 e 64,8% em 2025) ainda considera a praia não acessível. A avaliação por meio da escala de Likert revelou uma persistente concentração de classificações "Regular" em aspectos estruturais vitais, como mobilidade urbana, acesso à praia, hotéis e restaurantes, embora os equipamentos turísticos tenham demonstrado avanço expressivo em 2025. Conclui-se que persistem barreiras urbanísticas severas no local, reforçando a necessidade emergencial de intervenções de infraestrutura e de políticas públicas voltadas à inclusão social e ao fortalecimento do desenvolvimento do turismo regional.
Palavras-chave: Acessibilidade. Turismo. Desenvolvimento.
ABSTRACT
Tourism has consolidated itself as one of the most profitable sectors globally, acting as a driving force for development and social inclusion. Faced with this, debates on accessible tourism seek to guarantee autonomy and democratize access for people with disabilities (PWD) or reduced mobility to destinations. This article presents a qualitative and exploratory study that comparatively analyzes the accessibility reports of Ponta Negra Beach (RN) developed by the Observatório Potiguar de Inovação do Turismo (OPOTUR) in the years 2024 and 2025. The 2024 survey included 100 respondents (exclusively PWD or people with reduced mobility), while the 2025 study expanded to 304 participants (including people without disabilities). The results indicate a subtle improvement in the general positive perception of local accessibility, which increased from 20.4% to 35.2%. However, the majority of interviewees in both years (79.6% in 2024 and 64.8% in 2025) still consider the beach not accessible. Evaluation through the Likert scale revealed a persistent concentration of "Regular" ratings in vital structural aspects such as urban mobility, access to the beach, hotels, and restaurants, although tourist equipment showed significant progress in 2025. It is concluded that severe urban barriers still persist at the site, reinforcing the urgent need for infrastructure interventions and public policies aimed at social inclusion and strengthening the development of regional tourism.
Keywords: Accessibility. Tourism. Development.
Na contemporaneidade, o turismo vem ganhando mais força e ocupando um crescente destaque como um dos setores mais lucrativos da indústria, o que proporciona que o mesmo seja um vetor de desenvolvimento e realização pessoal. Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, 2025), o Brasil foi apresentado como uma das 10 maiores potências globais do turismo em geração de empregos.
Para tornar este fenômeno mais atrativo e rentável foram criadas segmentações de mercado com o objetivo de abarcar todos os tipos de consumidores e ampliar a oferta dos destinos turísticos, possibilitando que o turismo seja facilmente implementado em múltiplas regiões. O bom planejamento desses nichos é essencial para bem receber seus respectivos turistas e impactar positivamente na imagem do destino, repercutindo na experiência dos indivíduos (Chen et al., 2020).
Devido a ampliação do turismo e seus segmentos tornou-se imprescindível refletir sobre a disseminação desses produtos turísticos, bem como sobre a democratização de seu acesso por parte de diferentes grupos sociais. Assim, durante a década de 80 surgiram os primeiros debates acerca da acessibilidade no turismo, mais conhecido como turismo acessível (Lee et al., 2012), inserindo os primeiros conhecimentos e normatizações para empreendimentos, destinos e atrativos com acessibilidade para todos
Para tanto, o turismo acessível conceitua-se como a implementação do turismo baseado na inclusão das pessoas com deficiência (PCD), corroborando para sua autonomia e usufruto dos serviços turísticos (Smith et al., 2013). No tocante a autonomia, Rodrigues e Valduga (2021) afirmam que a definição deste segmento está atrelada ao bem-estar social, o que o torna mais amplo, abrangendo todas as pessoas.
Contudo, Soares e Sánchez-Fernández (2018) concluem a existência de uma lacuna nos estudos voltados para a acessibilidade no turismo, o que fomenta o surgimento de barreiras que limitam o acesso aos destinos. A ausência de implementações voltadas para a acessibilidade pode tornar o destino inalcançável por uma parte dos turistas, restringindo o potencial de desenvolvimento local da região em que o fenômeno turístico se insere.
Além disso, a negligência em relação à acessibilidade contribui para a marginalização desse público, uma vez que tal fator limita sua plena participação nas atividades turísticas e restringe o exercício do direito ao lazer, à mobilidade e à fruição dos espaços e serviços disponíveis, assim como à cultura característica de cada destino.
Segundo o Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE 2022), existem 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o levantamento também apontou que 5,2 milhões de pessoas têm dificuldade para andar ou subir degraus. Dito isto, o estudo justifica-se pela necessidade de enfatizar a importância da acessibilidade no turismo, servindo como estímulo para o surgimento de novas pesquisas na área.
A implementação de medidas voltadas à inclusão desse público pode contribuir significativamente para a dinamização do fluxo econômico do destino em que tais iniciativas são adotadas. Nesse sentido, Smith, Amorim e Soares (2013) apontam que esse segmento apresenta elevado potencial de rentabilidade, uma vez que pessoas com deficiência frequentemente realizam suas viagens acompanhadas por familiares e amigos, o que amplia o número de visitantes e, consequentemente, potencializa os impactos econômicos positivos para o destino turístico.
Nesse sentido, faz-se necessária a adoção de medidas que ultrapassem as dimensões estritamente infraestruturais, abrangendo também aspectos relacionados aos comportamentos sociais, aos meios de comunicação e aos sistemas de transporte, de modo a promover, de forma efetiva, a acessibilidade no turismo.
Em função disso, a pesquisa teve como objetivo geral analisar comparativamente os levantamentos intitulados Análise de acessibilidade para o fomento do turismo na Praia de Ponta Negra/RN, realizados em 2024 e 2025.
Para alcançá-lo, estabeleceram-se como objetivos específicos identificar e descrever as condições de acessibilidade presentes na Praia de Ponta Negra/RN a partir dos dados levantados nas pesquisas realizadas em 2024 e 2025, bem como comparar os resultados obtidos nos dois levantamentos, evidenciando mudanças, melhorias ou permanências nas condições de acessibilidade do destino turístico.
No que se refere à metodologia, o estudo foi caracterizado como qualitativo e exploratório. Guerra (2024) enfatiza que esse tipo de pesquisa contribui para uma melhor compreensão do problema estudado. O levantamento buscou comparar os relatórios da pesquisa intitulada Análise da acessibilidade para o fomento do turismo na Praia de Ponta Negra/RN, realizada nos anos de 2024 e 2025.
A pesquisa foi realizada pelo Observatório Potiguar de Inovação do Turismo (OPOTUR), vinculado a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). O estudo foi realizado no entorno da Praia de Ponta Negra/ RN, o local é um dos principais atrativos do estado, detendo uma grande quantidade de turistas diariamente.
O primeiro levantamento foi realizado durante o mês de junho de 2024, participaram 100 respondentes, enquanto na pesquisa realizada durante o mês de junho de 2025, o universo amostral foi ampliado para 304 participantes. Essa ampliação possibilitou uma análise mais abrangente da percepção dos usuários em relação à acessibilidade no local. No que se refere a análise dos resultados, houve uma mudança importante no público-alvo das pesquisas.
Em 2024, os questionários foram direcionados exclusivamente para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, com o objetivo de compreender diretamente a percepção desse público em relação às condições de acessibilidade do local.
Já na pesquisa de 2025, o levantamento foi ampliado e passou a incluir pessoas sem deficiência, permitindo analisar também a percepção geral da população sobre a acessibilidade da praia. Essa mudança metodológica contribuiu para ampliar o alcance da análise e possibilitou uma visão mais ampla da realidade da acessibilidade no destino turístico.
A plataforma utilizada para aplicação e confecção dos formulários foi o Google forms, onde, no mesmo, existiam perguntas policrômicas, dicotômicas estruturadas através da escala de Likert de 3 (três) pontos, onde o entrevistado poderia expor sua opinião, selecionando uma opção dentre 3 (três) opções, que variavam entre (Bom, Ótimo ou Regular). Utilizando Estatística descritiva como método de análise de dados com o objetivo de esclarecer a compreensão dos resultados encontrados.
Em relação ao gênero dos participantes, observa-se uma diferença na distribuição entre os dois levantamentos. Na pesquisa de 2024, a maioria dos respondentes foi composta por homens (50%), seguidos por mulheres (47,9%) e 2,1% de pessoas que se identificaram com outros gêneros.
Já no levantamento realizado em 2025, houve uma inversão dessa predominância, sendo que 54,1% dos respondentes se identificaram como mulheres, 44,2% como homens e 1,7% como pessoas não binárias. Essa mudança está relacionada à ampliação do público participante da pesquisa, bem como à maior participação de diferentes perfis populacionais no levantamento mais recente.
Outra diferença significativa observada entre os dois estudos refere-se à faixa etária dos participantes. No levantamento realizado em 2024, a maioria dos respondentes estava concentrada entre 36 e 65 anos, representando 77,1% da amostra. Já na pesquisa de 2025, o perfil etário apresentou uma mudança expressiva, com predominância de respondentes mais jovens. Nesse levantamento, 47,7% dos participantes estavam na faixa de 18 a 25 anos, seguidos por 19,4% entre 26 e 35 anos e 18,8% entre 36 e 50 anos.
A diferença percebida se deu pelo fato da ampliação dos sujeitos da pesquisa. Contudo percebe-se que na última pesquisa, o número de respondentes entre 35 e 50 anos decaiu, algo que acontece devido às barreiras encontradas no entorno do local estudado. Em relação à percepção geral sobre a acessibilidade da Praia de Ponta Negra, ambas as pesquisas apontam que a maioria dos entrevistados considera que o local não é acessível.
No levantamento realizado em 2024, 79,6% dos respondentes afirmaram que a praia não possui acessibilidade, enquanto em 2025 esse percentual reduziu para 64,8%, representando uma diminuição de 14,8 pontos percentuais. Em contrapartida, a percepção positiva acerca da acessibilidade aumentou de 20,4% em 2024 para 35,2% em 2025, indicando uma leve melhoria na percepção dos participantes.
Embora os dados indiquem uma discreta melhoria na percepção geral, a maioria dos participantes de ambas as pesquisas ainda aponta a presença de limitações estruturais relacionadas à acessibilidade.
Apesar da redução no percentual de avaliações negativas, os resultados demonstram que a maioria dos participantes ainda percebe limitações estruturais significativas na Praia de Ponta Negra. Esse cenário pode estar relacionado à permanência de barreiras urbanísticas, ausência de equipamentos adequados e insuficiência de intervenções voltadas à mobilidade e inclusão dos visitantes.
Nesse contexto, Silva et al. (2025) ressaltam que a ausência de condições adequadas de acessibilidade constitui um fator determinante para o desenvolvimento do turismo, uma vez que esse elemento se configura como um importante diferencial no mercado turístico, influenciando diretamente o fluxo econômico do destino. A avaliação dos aspectos estruturais da Praia de Ponta Negra foi realizada nas duas pesquisas por meio da Escala de Likert de três pontos.
A análise comparativa dos resultados demonstra que, nos dois levantamentos, a maior parte dos aspectos avaliados apresentou predominância de classificações intermediárias, concentradas na categoria Regular. Entre os aspectos analisados estão: mobilidade urbana; acesso à praia; acesso aos restaurantes; acesso a hotéis e pousadas; equipamentos de acessibilidade e equipamentos turísticos.
Os resultados indicam que manteve um padrão semelhante ao identificado na pesquisa de 2024, caracterizado pela predominância de avaliações intermediárias ou insatisfatórias. Esse padrão sugere que, apesar de eventuais mudanças ou intervenções no espaço urbano ao longo do período analisado, a percepção sobre a qualidade da infraestrutura e das condições de acessibilidade da Praia de Ponta Negra ainda permanece relativamente estável.
Figura 1 – Quadro analítico
Fonte: OPOTUR, 2025.
Figura 2 – Quadro analítico
Fonte: OPOTUR, 2025.
Os resultados demonstram que a percepção sobre a acessibilidade da Praia de Ponta Negra apresenta padrões semelhantes nos dois estudos, caracterizados principalmente pela predominância de avaliações intermediárias ou negativas em relação à infraestrutura e aos equipamentos turísticos.
Os dados encontrados evidenciam que poucas implementações voltadas à acessibilidade foram realizadas na praia, o que compromete tanto as condições de acesso quanto a efetivação do direito ao lazer para todos os indivíduos.
Além disso, essa limitação também repercute negativamente na atratividade e na popularidade do destino turístico, tendo em vista que a ausência de estruturas adequadas pode restringir a participação de diferentes públicos
A análise comparativa entre os levantamentos realizados em 2024 e 2025 permitiu identificar avanços discretos na percepção da acessibilidade da Praia de Ponta Negra, especialmente relacionados à redução do percentual de avaliações negativas sobre as condições de acesso e infraestrutura do destino.
Apesar disso, os resultados demonstram que a maioria dos participantes ainda considera a praia pouco acessível, evidenciando a permanência de barreiras estruturais e limitações relacionadas à mobilidade urbana, equipamentos turísticos e acesso aos serviços.
Além disso, a ampliação do público-alvo na pesquisa de 2025 possibilitou uma compreensão mais abrangente sobre a percepção social da acessibilidade no destino turístico, contribuindo para análises mais amplas acerca da inclusão e do direito ao lazer.
Portanto, conclui-se que ainda são necessárias políticas públicas e intervenções estruturais voltadas à acessibilidade, de modo a promover a inclusão social, melhorar a experiência turística e fortalecer o desenvolvimento do turismo local.
Com base nos resultados obtidos, sugere-se a realização de novas pesquisas direcionadas à análise da acessibilidade em diferentes atrativos turísticos das cidades, favorecendo uma maior diversificação do produto turístico. Esses levantamentos podem impulsionar a implementação de ações voltadas à inclusão das pessoas com deficiência (PCDs) no turismo, oferecendo condições mais adequadas de acesso, permanência e participação nas atividades turísticas.
Desse modo, a promoção da acessibilidade deve ser compreendida como um elemento essencial para a construção de um turismo mais inclusivo, democrático e sustentável, capaz de garantir o direito ao lazer e à mobilidade para todos os indivíduos.
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1 Bacharel em Turismo pela Universidade o Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Pós-graduando em Desenvolvimento Territorial: Turismo e Gastronomia pelo Instituto Federal Farroupilha (IFFAR) e Mestrando em Turismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). https://lattes.cnpq.br/4655072816430915.
2 Graduanda em Turismo pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). https://lattes.cnpq.br/2686642663778704.
3 Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP-SP, 2011). Graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Professor do Curso de Turismo da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). https://lattes.cnpq.br/4136479808014274.