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Recebido em: 13.03.2026

Aprovado em: 10.04.2026

Avaliado pelo: Sistema Double Blind Review


DESAFIOS DA FORMALIZAÇÃO DOS MEIOS DE HOSPEDAGEM INFORMAIS DA REGIÃO TURÍSTICA COSTA DAS FALÉSIAS NA PARAÍBA


CHALLENGES OF FORMALIZING INFORMAL ACCOMMODATION ESTABLISHMENTS IN THE COSTA DAS FALÉSIAS TOURISM REGION, PARAÍBA


Francisco Coelho Mendes1

E-MAIL: coelhomendesufpb2015@gmail.com

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3227-2441


Diego Teixeira Marques2

E-MAIL:  diegoteixeira1996@gmail.com

ORCID: https://orcid.org/0009-0004-1581-1647


Mozart Fazito Rezende Filho3

E-MAIL: fazito.rezende@ufrn.br

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7528-6619


RESUMO

A informalidade nos meios de hospedagem representa um dos principais desafios para o desenvolvimento sustentável do turismo em destinos emergentes, influenciando aspectos relacionados à qualidade dos serviços, competitividade e planejamento turístico. Este estudo teve como objetivo analisar os desafios e os benefícios da formalização dos meios de hospedagem informais na Região Turística Costa das Falésias, na Paraíba, considerando sua contribuição para o desenvolvimento socioeconômico e turístico sustentável. A pesquisa adotou abordagem exploratória e descritiva, com métodos qualitativos e quantitativos, utilizando questionários aplicados a proprietários e gestores de meios de hospedagem, além do mapeamento de 424 empreendimentos por meio de Inteligência Artificial e ferramentas de Power BI. Os resultados evidenciam que apenas uma pequena parcela dos meios de hospedagem encontra-se formalizada, sendo identificados como principais obstáculos à formalização a burocracia, os custos de adequação, a falta de informação e a necessidade de adoção de práticas mais sustentáveis. Por outro lado, a formalização amplia o acesso a políticas públicas, capacitação, crédito e maior inserção no planejamento turístico. Conclui-se que a formalização constitui elemento estratégico para fortalecer a competitividade, a qualidade dos serviços e a sustentabilidade do turismo regional, exigindo políticas públicas que promovam inclusão produtiva, simplificação dos processos de regularização e apoio aos pequenos empreendedores.

Palavras-chave: turismo sustentável. meios de hospedagem. informalidade no turismo.


ABSTRACT

The informality of accommodation establishments represents one of the main challenges to sustainable tourism development in emerging destinations, affecting service quality, competitiveness, and tourism planning. This study aimed to analyze the challenges and benefits of formalizing informal accommodation establishments in the Costa das Falésias Tourist Region, Paraíba, considering their contribution to socioeconomic development and sustainable tourism. An exploratory and descriptive approach was adopted using qualitative and quantitative methods, including questionnaires administered to accommodation owners and managers, as well as the mapping of 424 establishments through Artificial Intelligence and Power BI tools. The results reveal that only a small proportion of the accommodation establishments are formally registered, with bureaucracy, compliance costs, lack of information, and the need to adopt more sustainable practices identified as the main barriers to formalization. On the other hand, formalization increases access to public policies, professional training, credit opportunities, and greater integration into tourism planning. The study concludes that formalization is a strategic element for strengthening competitiveness, improving service quality, and promoting the sustainable development of regional tourism, requiring public policies that foster productive inclusion, simplify formalization procedures, and support small entrepreneurs.


Keywords: sustainable tourism; accommodation establishments; informality in tourism.



1. INTRODUÇÃO


O turismo tem se consolidado como uma das principais atividades econômicas globais, desempenhando papel fundamental no desenvolvimento regional e na geração de emprego e renda (Beni, 2019). Em destinos turísticos emergentes, contudo, observa-se, frequentemente, a expansão de atividades informais, particularmente no setor de hospedagem.

No contexto brasileiro, a informalidade no turismo representa um desafio significativo para a gestão e o planejamento dos destinos turísticos. Meios de hospedagem informais, como aluguel de apartamentos ou casas de temporada, hospedagens familiares e acomodações ofertadas por plataformas digitais, têm ampliado a oferta turística, mas frequentemente operam fora dos sistemas formais de regulamentação e fiscalização. Essa situação pode gerar impactos relacionados à qualidade dos serviços, à segurança dos turistas, à arrecadação tributária e à competitividade dos destinos turísticos (Guttentag, 2015).

Na Região Turística Costa das Falésias, localizada no litoral sul da Paraíba e formada pelos municípios de Conde, Pitimbu e Caaporã, o crescimento do turismo tem estimulado o surgimento de diversos meios de hospedagem, incluindo pousadas familiares, casas de temporada e hospedagens ofertadas por plataformas digitais. Muitos desses empreendimentos operam de forma informal, sem registro ou cumprimento das regulamentações estabelecidas para o setor turístico.

Embora a informalidade possa representar uma alternativa de geração de renda para comunidades locais, ela também pode gerar desafios relacionados à qualidade dos serviços, segurança dos turistas e planejamento da ocupação territorial do município. Por outro lado, a formalização dos meios de hospedagem pode contribuir para o fortalecimento do desenvolvimento econômico local, ampliando o acesso aos programas de qualificação e políticas públicas de turismo.

Diante desse cenário, surge a seguinte questão de pesquisa: como a formalização dos meios de hospedagem informais na região turística Costa das Falésias impacta no desenvolvimento econômico local e na sustentabilidade do turismo regional?

Portanto, o objetivo geral deste estudo é analisar os desafios e os benefícios da formalização dos meios de hospedagem informais na região turística Costa das Falésias, considerando sua contribuição para o desenvolvimento socioeconômico e turístico sustentável.

Esta pesquisa se justifica pela necessidade de ampliar os estudos sobre a relação entre informalidade, formalização e desenvolvimento turístico em destinos emergentes do Nordeste brasileiro. Embora existam estudos sobre economia informal no turismo, ainda são limitadas as pesquisas que analisam, especificamente, os desafios e os benefícios da formalização de meios de hospedagem em regiões turísticas emergentes.

Assim, ao analisar os desafios e os benefícios da formalização dos meios de hospedagem informais, esta pesquisa contribui para o avanço do conhecimento científico na área do turismo e fornece subsídios para o planejamento e a gestão sustentável do destino turístico, auxiliando gestores públicos, empreendedores e instituições na formulação de estratégias voltadas para o fortalecimento do turismo regional.

A formalização de empreendimentos turísticos é considerada um elemento essencial para a organização e o desenvolvimento sustentável da atividade turística. Empreendimento formalizado possui maior capacidade de acesso a crédito, programas de capacitação e políticas públicas de incentivo ao turismo (Beni, 2019). Além disso, a formalização permite a integração dos empreendimentos aos sistemas de planejamento turístico e às estratégias de promoção dos destinos, contribuindo para o fortalecimento da competitividade turística (Cooper et al., 2008).

A informalidade é um fenômeno recorrente em economias em desenvolvimento e pode ser observada em diversos setores produtivos, incluindo o turismo (Williams & Shaw, 2011). No setor de hospedagem, a informalidade manifesta-se principalmente por meio de estabelecimentos que operam sem registro oficial ou sem cumprir os requisitos regulatórios estabelecidos pelas autoridades públicas.

Nos últimos anos, a expansão da economia compartilhada e das plataformas digitais de hospedagem, como Airbnb e Booking, ampliou significativamente a oferta de acomodações turísticas informais em diversos destinos (Dolnicar, 2019).

Embora essas plataformas tenham democratizado o acesso ao mercado de hospedagem, também têm gerado debates sobre concorrência com hotéis tradicionais, regulamentação do setor e impactos urbanos (Fang, Ye & Law, 2016).

Segundo Ioannides, Röslmaier e Van der Zee (2019), a informalidade na hospedagem pode gerar benefícios econômicos para comunidades locais, mas também apresenta desafios relacionados à fiscalização, qualidade dos serviços e planejamento urbano. Assim, a regulação e formalização desses empreendimentos tornam-se importantes para garantir equilíbrio competitivo no mercado turístico e proteção ao consumidor. Embora esses empreendimentos ampliem a oferta turística e gerem renda local, sua operação informal pode gerar problemas relacionados à segurança, qualidade e fiscalização.



2. METODOLOGIA


A pesquisa adotou abordagem exploratória e descritiva, utilizando métodos qualitativos e quantitativos. Quanto a pesquisa de demanda da formalização de meios de hospedagem informal, foram aplicados questionários, por e-mail, whatsapp, telefone, junto aos proprietários e gerentes dos meios de hospedagem, onde foram obtidas 50 respostas válidas. Buscou-se compreender a percepção dos respondentes sobre desafios e benefícios da formalização.

Além da pesquisa de demanda, também foi realizado um mapeamento de oferta de meios de hospedagem formais e informais na região turística Costa das Falésias, fazendo uso da Inteligência Artificial (IA) para coletar, caracterizar e analisar os dados disponíveis em plataformas digitais de hospedagens (Airbnb e Booking) junto aos municípios Conde, Pitimbu e Caaporã, onde foram mapeados 424 meios de hospedagem formais e informais. O mapeamento de oferta de meios de hospedagem e a pesquisa de demanda foram realizados no período de 1 de dezembro de 2025 a 31 de janeiro de 2026.

No processo de caracterização dos meios de hospedagem, fez-se uso da Inteligência Artificial (IA) e ferramentas de Power BI para identificar os tipos de hospedagem, características dos empreendimentos, localização geográfica, quantidade de unidades habitacionais, quantidades de camas disponíveis, capacidade de hospedagem e preço médio da diária por quarto ou por acomodação, no caso de aluguel de apartamento ou casa de temporada.

A caracterização dos meios de hospedagem consiste em identificar, organizar e analisar as principais características dos empreendimentos turísticos de uma determinada região. No caso da Costa das Falésias, isso envolve levantar informações sobre os estabelecimentos localizados em Conde, Pitimbu e Caaporã, distinguindo tipologias, padrões de funcionamento, localização, capacidade instalada, preços e indícios de formalização ou informalidade.

O uso combinado de Inteligência Artificial (IA) e Power BI fortalece esse processo porque permite trabalhar grandes volumes de dados de forma mais rápida, padronizada e analítica. Enquanto a IA ajuda a classificar, limpar, interpretar e enriquecer os dados, o Power BI permite estruturar indicadores, criar painéis interativos e visualizar padrões espaciais, econômicos e operacionais.

Os resultados desta pesquisa, referente ao mapeamento da oferta de meios de hospedagem e à demanda de hospedagens da região turística Costa das Falésias, estão disponíveis em Power Business Intelligence (Power BI), (UFPB/OTPB, 2026). Para mais informações acesse o link a seguir.

https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiYTQ2YTcwNmQtYmYzYS00ZjcwLWIwNGMtNjBlMDhlMDE1YjkyIiwidCI6IjA3MzkzNjYzLTVhODEtNGU2YS04NWZlLTk4MjU3YjYzY2ExYyJ9

Os dados da pesquisa são públicos e estão disponíveis na plataforma do OTPB https://observatorioturismopb.com.br/resultados-de-pesquisas-2/ para interação e uso do trade turístico (UFPB/OTPB, 2026).

A metodologia aplicada para realizar esta pesquisa poderá ser replicada para fazer o mapeamento de meios de hospedagem formais e informais em outras regiões turísticas da Paraíba.


3. RESULTADOS E DISCUSSÕES


São apresentados, na sequência, o resultado da pesquisa referente ao mapeamento da oferta de meios de hospedagem formais e informais na região turística Costa das Falésias, fazendo uso da Inteligência Artificial (IA) para coletar, caracterizar e analisar os dados disponíveis em plataformas digitais de hospedagens (Airbnb e Booking) junto aos municípios Conde, Pitimbu e Caaporã, onde foram mapeados 424 meios de hospedagem formais e informais.


3.1 Mapeamento da oferta de meios de hospedagem da Costa das Falésias na Paraíba


Tabela 1 - Cadastur X oferta de meios de hospedagem da Costa das Falésias na Paraíba

Quantidade de Meios de Hospedagem

Categoria/Tipo

Conde-PB

Pitimbu-PB

Caaporã-PB

Subtotal

Hotel

5

2

2

9

Flat/Studio

38

5

0

43

Apartamento

48

4

0

52

Pousada

53

10

0

63

Casa de temporada

185

47

0

232

Albergue/Hostel

4

1

0

5

Resort

0

2

0

2

Chalé

14

3

0

17

Hotel-Fazenda

1

0

0

1

TOTAL

348

74

2

424

Qtde. MH com CADASTURPB

24

11

2

37

Fonte: Autoria da pesquisa, 2026.


Na Tabela 1, observa-se a distribuição dos meios de hospedagem por munícipio versos a categoria ou tipo de imóvel disponível para hospedagem. Bem como, a quantidade de meios de hospedagem formalmente registrados no Cadastur, por município, até dezembro de 2025. Dos 424 meios de hospedagem mapeados nos municípios de Conde, Pitimbú e Caaporã, somente 37 (8,7%) deles estão registrados no Cadastur. Neste mapeamento, foram identificados 348 meios de hospedagem no Conde, sendo 24 (6,9%) deles formalizados no Cadastur; 74 meios de hospedagem em Pitimbu, sendo 11 (14,9%) deles formalizados no Cadastur; e 2 meios de hospedagem em Caaporã, sendo os 2 (100%) formalizados no Cadastur. Observa-se também, que a maior concentração da oferta de meios de hospedagem é de “casa de temporada”, e estão localizadas no município do Conde-PB.

É apresentada a distribuição dos meios de hospedagem por município ou sites ou categoria ou tipo de imóvel versos a quantidade de quartos e camas, capacidade de hóspedes por acomodação e, também, o valor médio da diária por quarto ou acomodação. Bem como, a nota da avalição realizada pelos hóspedes até dezembro de 2025. Observa-se que a maior concentração da oferta de meios de hospedagem é de “casa de temporada”. Porém, as diárias mais altas são nos Resorts. Observa-se também, que a maior concentração da oferta de meios de hospedagem está no Conde. Porém, as diárias mais altas são das acomodações de Pitimbu-PB.

Neste mapeamento, usou-se dos recursos da IA para identificar os meios de hospedagens informais disponíveis na plataforma digital de hospedagem (Airbnb e Booking), além da busca em outras plataformas digitais (Tripadvisor, Google, Vivihotels e Planetofhotels) para os casos onde não foi possível localizar as informações nas principais plataformas digitais de hospedagem.


3.2 Desafios da formalização e fatores que justificam a informalidade de meios de hospedagem


Os resultados indicam que diversos fatores dificultam a formalização dos meios de hospedagem informais na região. Entre os principais desafios identificados, destacam-se: aderir às práticas mais responsáveis e sustentáveis que minimizem os impactos negativos junto ao meio ambiente e à comunidade local (44,9%); custos de formalização: taxas, impostos e investimentos necessários para adequação às normas podem representar um obstáculo para empreendimentos familiares. Bem como, a burocracia administrativa do processo de formalização pode ser complexa para pequenos empreendedores, exigindo registro em diferentes órgãos e cumprimento de regulamentações (30,6%); concorrência com os estabelecimentos formais em termos de preços e qualidade dos serviços prestados (14,3%); falta de informação sobre acesso a créditos e aos benefícios fiscais e aos processos necessários para formalização (10,2%).

Entre os principais fatores que justificam a informalidade, destacam-se: busca por economia financeira: a informalidade permite que os proprietários economizem nos custos de formalização e contratação de pessoal, sem investir em sistemas e treinamento, visando um ganho financeiro mais rápido (46,0%); ausência de sistemas e registros: a falta de organização, de sistemas de gestão e de registros financeiros detalhados leva a um controle inadequado do fluxo de caixa e dos resultados do negócio (28,6%); gestão imediatista: há uma visão de curto prazo, focada em obter lucro imediato sem considerar os investimentos necessários para uma operação mais sustentável e profissional (12,7%); oportunidades geradas por plataformas digitais: o surgimento de plataformas como o Airbnb, Booking e o Couchsurfing facilita a entrada de novos meios de hospedagem, que por vezes operam na informalidade para aproveitar essas oportunidades econômicas (7,9%); evitar a complexidade da formalização: a burocracia e a complexidade de se legalizar a atividade podem ser barreiras para alguns empreendedores (4,8%).


3.3 Análise e discussão dos resultados


Os resultados evidenciam que a informalidade nos meios de hospedagem da Costa das Falésias está associada a fatores estruturais, como: burocracia, dificuldades de acesso ao crédito e desconhecimento dos processos de formalização. Esses achados dialogam diretamente com a literatura sobre desenvolvimento turístico em contextos periféricos, que aponta que a informalidade não é apenas um desvio institucional, mas uma característica estrutural de economias turísticas emergentes.

Nesse sentido, o estudo corrobora a perspectiva de que o turismo, embora frequentemente apresentado como vetor de desenvolvimento econômico, não garante, por si só, inclusão social ou sustentabilidade. Conforme argumentado por Kurang (2025), o turismo no Sul Global está inserido em estruturas neoliberais que priorizam o crescimento econômico em detrimento das condições sociais e do bem-estar dos trabalhadores. Essa lógica contribui para a expansão de formas precárias de inserção econômica, como a informalidade.

Na Costa das Falésias, a informalidade revela-se como mecanismo de inclusão produtiva local, permitindo a participação de pequenos empreendedores no mercado turístico. Entretanto, essa inclusão ocorre de forma desigual e sem garantias institucionais, reforçando a argumentação de que o turismo pode reproduzir vulnerabilidades socioeconômicas.

Adicionalmente, a literatura crítica sobre turismo internacional aponta que, em muitos destinos do Sul Global, os benefícios econômicos do turismo são limitados por processos de vazamento econômico (leakage) e fraca integração com a economia local (Jeyacheya & Hampton, 2026). Nesse contexto, a informalidade pode tanto ampliar a retenção de renda local quanto dificultar a consolidação de cadeias produtivas estruturadas.

Assim, os resultados do estudo indicam uma ambivalência: a informalidade contribui para o desenvolvimento local em termos de geração de renda, mas compromete a sustentabilidade econômica e institucional do destino no longo prazo.

Aplicando essa perspectiva ao caso estudado, observa-se que a informalidade pode ser interpretada não apenas como falha institucional, mas como resposta adaptativa a um ambiente regulatório complexo e excludente. Portanto, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas que: simplifiquem processos de formalização, promovam inclusão produtiva e fortaleçam a governança local.

O mapeamento de 424 meios de hospedagem evidencia a forte presença de plataformas digitais, como: Airbnb e Booking na estrutura da oferta turística regional. Esse resultado confirma a literatura que aponta a economia compartilhada como um dos principais vetores de expansão da informalidade no turismo (Dolnicar, 2019; Guttentag, 2015).

A partir de uma perspectiva crítica, a expansão dessas plataformas pode ser interpretada como parte de um processo mais amplo de reestruturação do capitalismo turístico. Conforme argumentado por Kurang (2025), o turismo contemporâneo está profundamente inserido em dinâmicas neoliberais que flexibilizam relações de trabalho e ampliam a precarização.

Nesse contexto, a informalidade nos meios de hospedagem amplia a oferta turística, reduz barreiras de entrada, mas também fragiliza mecanismos de regulação e controle. Além disso, conforme Jeyacheya e Hampton (2026), o turismo internacional pode assumir características extrativas, onde os benefícios econômicos são apropriados por plataformas globais e intermediários externos.

Aplicando essa análise ao estudo, observa-se que: plataformas digitais ampliam a participação local, mas também podem capturar parte significativa do valor gerado. Assim, a informalidade mediada por plataformas digitais deve ser compreendida como um fenômeno híbrido, simultaneamente inclusivo e excludente, local e global, formal e informal.

Os resultados indicam que a informalidade está associada a riscos relacionados à qualidade dos serviços, como ausência de padronização e menor controle sanitário e operacional. Essa evidência está em consonância com a literatura sobre qualidade em serviços, que destaca a importância de padrões regulatórios para garantir consistência na experiência do consumidor (Kandampully et al., 2015).

Entretanto, a discussão pode ser ampliada ao considerar o papel das plataformas digitais na regulação indireta da qualidade. Sistemas de avaliação online (reviews) funcionam como mecanismos de reputação que, em certa medida, substituem a regulação formal (Dolnicar, 2019). Ainda assim, essa regulação de mercado apresenta limitações, como: ausência de controle institucional, assimetria de informação e dificuldade de fiscalização.

Quanto à competitividade do destino, a coexistência de meios formais e informais pode gerar: diversificação da oferta, mas também concorrência desleal. Esse cenário reforça a necessidade de políticas que equilibrem: inovação e flexibilidade com qualidade e segurança.

A análise dos resultados à luz da literatura crítica revela que a informalidade está diretamente relacionada às contradições do turismo como estratégia de desenvolvimento no Sul Global. Conforme Jeyacheya e Hampton (2026), o turismo pode operar como um processo extrativo, no qual: recursos locais são explorados, benefícios são parcialmente externalizados e desigualdades são reproduzidas.

Por sua vez, Kurang (2025) destaca que o turismo, frequentemente, gera formas de trabalho precárias, especialmente em contextos em que a informalidade é predominante. No caso da Costa das Falésias, observa-se que a informalidade amplia oportunidades econômicas, mas também limita a sustentabilidade do destino turístico. Isso ocorre porque a informalidade dificulta o planejamento territorial, compromete a gestão ambiental e fragiliza a governança. Assim, a sustentabilidade do turismo regional depende não apenas da formalização, mas da construção de um modelo de desenvolvimento mais inclusivo e equilibrado.


4. CONSIDERAÇÕES FINAIS


A informalidade no setor de hospedagem é uma realidade presente em diversos destinos turísticos emergentes. Embora os meios de hospedagem informais desempenhem papel relevante na geração de renda local, sua operação sem regulamentação pode gerar desafios relacionados à qualidade dos serviços, segurança dos turistas e planejamento do turismo.

Quando os meios de hospedagem apresentam padrões adequados de qualidade, o destino tende a fortalecer sua reputação, aumentar a satisfação dos turistas e estimular o retorno de visitantes. Por outro lado, problemas relacionados à qualidade da hospedagem podem comprometer a imagem do destino e reduzir sua competitividade. Nesse sentido, a qualidade da hospedagem não afeta apenas o desempenho individual dos empreendimentos, mas também o desempenho do destino turístico.

Mesmo os empreendimentos informais ampliando a oferta turística e gerando renda local, sua operação informal pode gerar problemas relacionados à segurança, qualidade e fiscalização. Portanto, ao analisar os impactos da informalidade nos meios de hospedagem, esta pesquisa contribui para o avanço do conhecimento científico na área do turismo e fornece subsídios para o planejamento e a gestão sustentável do destino turístico, auxiliando gestores públicos, empreendedores e instituições na formulação de estratégias voltadas para o fortalecimento do turismo regional.

Os resultados desta pesquisa indicam que a formalização desses empreendimentos pode trazer benefícios significativos para o desenvolvimento turístico sustentável da região. Entretanto, para que esse processo ocorra de forma efetiva, é necessário o fortalecimento de políticas públicas voltadas para: capacitação de empreendedores, simplificação dos processos de formalização, ampliação do acesso a crédito e apoio técnico para gestão dos empreendimentos. Assim, a formalização dos meios de hospedagem pode contribuir para o fortalecimento da competitividade turística da Costa das Falésias e para a promoção do desenvolvimento econômico local sustentável.

Os resultados do estudo, quando analisados à luz da literatura contemporânea, indicam que a informalidade nos meios de hospedagem não deve ser tratada exclusivamente como problema a ser eliminado, mas como fenômeno complexo inserido em dinâmicas estruturais do turismo no Sul Global.


REFERÊNCIAS


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COOPER, C.; FLETCHER, J.; FYALL, A.; GILBERT, D.; WANHILL, S. Tourism: principles and practice. Harlow: Pearson Education, 2008.


DOLNICAR, S. Peer-to-peer accommodation networks: pushing the boundaries. Oxford: Goodfellow Publishers, 2019.


FANG, B.; YE, Q.; LAW, R. Effect of sharing economy on tourism industry employment. Journal of Travel Research, v. 55, n. 4, p. 450-463, 2016.


GUTTENTAG, D. Airbnb: disruptive innovation and the rise of an informal tourism accommodation sector. Current Issues in Tourism, v. 18, n. 12, p. 1192-1217, 2015.


IOANNIDES, D.; RÖSLMAIER, M.; VAN DER ZEE, E. Airbnb as an instigator of tourism gentrification. Tourism Geographies, v. 21, n. 5, p. 822-840, 2019.


JEYACHEYA, J.; HAMPTON, M. P. International tourism in the Global South: revealing an extractive development process. The Political Quarterly, 2026.


KANDAMPULLY, J.; ZHANG, T.; BILGIHAN, A. Customer loyalty: a review and future directions with a special focus on hospitality industry. International Journal of Contemporary Hospitality Management, v. 27, n. 3, p. 379-414, 2015.


KURANG, A. Tourism for development: rethinking development, social protection and the wellbeing of precarious workers in Gambia’s tourism industry. 2025. Tese (Doutorado em Filosofia) – SOAS University of London, Londres, 2025.


MINISTÉRIO DO TURISMO (Brasil). Renovar cadastro de prestador de serviços turísticos (Cadastur). Brasília, DF: MTur, 2025.


UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA. Observatório de Turismo da Paraíba. Relatório de pesquisa de demanda turística em João Pessoa-PB. João Pessoa: UFPB/OTPB, 2026. Disponível em: Power BI OTPB/UFPB. Acesso em: 28 fev. 2026.


WILLIAMS, A.; SHAW, G. Tourism and the informal economy. London: Routledge, 2011.


1 Doutorado em Ciência, Tecnologia e Inovação Agropecuária (UFRRJ). Professor na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/8184612809361335.

2 MBA em Ciência de Dados (Universidade de Fortaleza). Colaboradora do OTPB na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). CV: https://lattes.cnpq.br/7203752705697989.

3 Doutorado em Geography, Planning and Environment Policy pela University College Dublin (Irlanda). Professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). CV: https://lattes.cnpq.br/1500119299281914.

125 Revista Brasileira dos Observatórios de Turismo - ReBOT, Natal/RN, v.5, n.2, Dossiê 4ª Mostra de Pesquisa Científica e Mercadológica da RBOT, p. 119-130, 2026.