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Recebido em: 13.03.2026

Aprovado em: 10.04.2026

Avaliado pelo: Sistema Double Blind Review


TURISMO NA ECONOMIA DO MAR CAPIXABA: EVIDÊNCIAS TERRITORIAIS DO LITORAL

TOURISM IN ESPÍRITO SANTO'S OCEAN ECONOMY: TERRITORIAL EVIDENCE FROM COASTAL MUNICIPALITIES


Rodrigo Straessli Pinto Franklin1

E-MAIL: rodrigo.franklin@ufes.br

https://orcid.org/0000-0003-2698-2826


Pollyanna Paganoto Moura2

E-MAIL: pollyannapaganoto@gmail.com

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6638-388X


Everlam Elias Montibeler3

E-MAIL: everlam.montibeler@ufes.br

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8899-8669



RESUMO

O presente estudo analisa o papel do turismo na Economia do Mar capixaba, considerando sua distribuição territorial e sua participação na estrutura empresarial formal dos municípios litorâneos do Espírito Santo. A pesquisa tem como objetivo compreender o peso relativo, a composição e a espacialização das atividades características de turismo na Economia do Mar estadual, com foco nos 14 municípios costeiros. Trata-se de uma pesquisa descritiva e exploratória, baseada em dados secundários de empresas formalmente classificadas na Economia do Mar, contemplando informações sobre número de empresas, atividades econômicas, idade das firmas, capital social, empregos formais e remuneração do trabalho. Os resultados indicam que o turismo representa o principal macrossetor da Economia do Mar capixaba em quantidade de empresas, correspondendo à maior parte dos estabelecimentos formais analisados. Entretanto, observa-se uma forte concentração territorial das atividades, especialmente nos municípios de Vitória, Vila Velha, Serra e Guarapari, além de predominância de segmentos relacionados à alimentação e bebidas. No recorte de trabalho formal, verifica-se também concentração dos empregos e da massa salarial em poucos municípios do litoral. Conclui-se que o turismo constitui uma dimensão estratégica da Economia do Mar do Espírito Santo, porém marcada por desigualdades territoriais que reforçam a necessidade de indicadores integrados e análises baseadas em evidências para subsidiar o planejamento e a gestão pública do setor.

Palavras-chave: Turismo. Economia do Mar. Litoral capixaba. Análise territorial. Observatórios.


ABSTRACT

This study analyzes the role of tourism in Espírito Santo’s ocean economy, considering its territorial distribution and participation in the formal business structure of coastal municipalities. The research aims to understand the relative importance, composition, and spatial distribution of tourism-related activities within the state’s ocean economy, focusing on the 14 coastal municipalities of Espírito Santo, Brazil. This is a descriptive and exploratory study based on secondary data from formally classified companies within the ocean economy, including information on the number of companies, economic activities, firm age, social capital, formal employment, and labor remuneration. The results indicate that tourism represents the main sector of Espírito Santo’s ocean economy in terms of the number of companies, accounting for the largest share of formal establishments analyzed. However, the sector presents strong territorial concentration, especially in the municipalities of Vitória, Vila Velha, Serra, and Guarapari, along with a predominance of food and beverage-related activities. Regarding formal employment, the concentration of jobs and wage mass in a limited number of municipalities is also evident. It is concluded that tourism represents a strategic dimension of Espírito Santo’s ocean economy, although characterized by territorial inequalities that highlight the importance of integrated indicators and evidence-based analyses to support public planning and sector management.

Keywords: Tourism. Ocean Economy. Espírito Santo Coast. Territorial Analysis. Observatories.



1. INTRODUÇÃO


O turismo costeiro e marinho ganhou centralidade crescente no debate sobre Economia do Mar no Brasil, tanto pela capacidade de mobilizar consumo, serviços e emprego quanto pela sua dependência de infraestruturas urbanas, ambientais e informacionais (Carvalho, 2018; Andrade et al., 2022; Santos et al., 2024).

No campo das políticas públicas, esse debate passou a dialogar mais diretamente com a agenda de observatórios e sistemas de inteligência turística, voltados à produção de evidências para planejamento, monitoramento e tomada de decisão (Santos; Pinheiro, 2019; Guimarães; Soares; Carvalho, 2024; Brasil, 2024).

No Espírito Santo, a discussão é particularmente relevante porque o litoral reúne atividades portuárias, óleo e gás, pesca, extração mineral, construção naval e turismo, compondo uma estrutura econômica fortemente vinculada ao mar (Viana et al., 2025; Oliveira Júnior; Monteiro; Receputi, 2023).

Em paralelo, iniciativas recentes de qualificação do Observatório do Turismo do Estado do Espírito Santo reforçam a importância de bases integradas para acompanhar a dinâmica turística, gerar indicadores e subsidiar decisões públicas e privadas (Rodrigues; Vaccari; Silva, 2025).

Apesar desses avanços, ainda são escassas as leituras empíricas que posicionem as atividades características de turismo dentro da estrutura formal da Economia do Mar capixaba sob uma perspectiva territorial comparativa. Diante dessa lacuna, este trabalho objetiva analisar o peso relativo, a composição e a distribuição espacial das atividades características de turismo na Economia do Mar do Espírito Santo, com ênfase nos 14 municípios litorâneos.

O que os dados mostram é que, considerando as atividades características de turismo, o macrossetor do turismo constitui o principal em número de empresas e empregos, porém organizado de forma territorialmente desigual e ancorado em atividades urbanas de alimentação e bebidas.



2. METODOLOGIA


A pesquisa, de natureza descritiva e exploratória, utiliza dados secundários de empresas formalmente classificadas na Economia do Mar do Espírito Santo, extraídos em março de 2026 de base pública integrada de indicadores territoriais4.

O recorte privilegiou o macrossetor Turismo nos 14 municípios litorâneos do estado e mobilizou seis grupos de informações: número de empresas, participação relativa no universo da Economia do Mar, atividade econômica principal, idade das firmas, capital social e indicadores de trabalho formal da RAIS (empregos ativos, salários totais, salário médio e empresas com vínculos).

Para fins analíticos, as atividades características de turismo foram tomadas como expressão da oferta formal registrada em bases administrativas, e não como medida direta de fluxo de visitantes, permanência média, gasto turístico ou intensidade de uso dos atrativos.

Nessa chave, os resultados dizem respeito à estrutura empresarial formal do setor e, no recorte RAIS, à distribuição do emprego e da remuneração do trabalho, permitindo observar seu peso econômico relativo e sua espacialização. Os indicadores de emprego e salários, portanto, referem-se apenas aos estabelecimentos com vínculos formais ativos.

Os procedimentos foram organizados em quatro frentes: i) comparação do turismo com os demais macrossetores da Economia do Mar; ii) identificação das atividades econômicas mais frequentes no interior das atividades características de turismo; iii) análise da distribuição municipal das firmas no litoral capixaba; e iv) exame da concentração territorial do emprego formal e da massa salarial.

Como produtos analíticos, foram elaborados três gráficos e um mapa temático com ranking municipal. A base cartográfica dos municípios foi obtida a partir da malha municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), utilizada para representação do padrão territorial.


3. RESULTADOS E DISCUSSÕES


O primeiro resultado refere-se ao peso relativo das atividades características de turismo no universo empresarial da Economia do Mar capixaba. A base registra 34.614 empresas vinculadas ao macrossetor Turismo, distribuídas por 14 municípios litorâneos e por 27 CNAEs. Em termos proporcionais, isso corresponde a 91,58% do total de empresas formalmente classificadas na Economia do Mar.

A Figura 1 evidencia que, embora o imaginário público sobre a economia marítima costume privilegiar portos, óleo e gás ou pesca, a estrutura empresarial observada no Espírito Santo é largamente dominada por atividades turísticas e correlatas de serviços.

Figura 1 – Participação dos macrossetores da Economia do Mar no total de empresas.

Fonte: Elaboração própria com base em dados secundários consultados em março de 2026.


Esse achado dialoga com Santos et al. (2024), que identificaram no Rio de Janeiro um papel expressivo do setor de serviços na economia oceânica, e com Andrade et al. (2022), que destacam a necessidade de delimitações empíricas capazes de tornar visível esse peso relativo. No caso capixaba, o dado sugere que o turismo deve ser tratado como dimensão estrutural — e não periférica — das atividades ligadas ao mar.

A predominância quantitativa das atividades características de turismo, entretanto, não implica homogeneidade interna. A Figura 2 mostra que lanchonetes, restaurantes, alimentação para consumo domiciliar, serviços ambulantes de alimentação e bares respondem pela parcela mais significativa do conjunto.

As seis atividades líderes concentram 83,36% das empresas do macrossetor. Além disso, a mediana do capital social é de R$ 5.000 e a mediana de idade das firmas é de 6 anos, o que indica uma base empresarial pulverizada, formada majoritariamente por pequenos negócios.

Desse modo, as atividades características de turismo da Economia do Mar capixaba aparecem menos como um segmento restrito à hotelaria ou ao lazer marítimo especializado e mais como uma rede ampla de serviços de consumo associados ao cotidiano urbano do litoral.


Figura 2 – Atividades econômicas formais mais frequentes nas atividades características de turismo da Economia do Mar capixaba.

Fonte: Elaboração própria com base em dados secundários consultados em março de 2026.


A distribuição territorial confirma o caráter concentrado do setor. Vila Velha, Vitória, Serra e Guarapari reúnem, sozinhas, 84,03% das empresas das atividades características de turismo formal ligadas à Economia do Mar.

A Figura 3 combina mapa e ranking municipal para mostrar a centralidade do litoral metropolitano, com Guarapari funcionando como polo histórico de lazer e segunda residência. Nos demais municípios costeiros, a escala empresarial é substancialmente menor, com destaque intermediário para Marataízes, Anchieta, Piúma, São Mateus e Aracruz.


Figura 3 – Concentração municipal das empresas das atividades características de turismo no litoral capixaba.

Fonte: elaboração própria com base em dados secundários consultados em março de 2026 e malha municipal do IBGE.


Quando se observa o recorte de trabalho formal da RAIS, as atividades características de turismo reúnem 21.782 empregos ativos, distribuídos por 6.301 empresas, com salários totais de R$ 41.652.385,32, salário médio de R$ 1.912,24 e média de 3,46 empregos por empresa com vínculo ativo.

A Figura 4 mostra que essa base ocupacional é ainda mais concentrada do que o universo de firmas: os quatro maiores municípios respondem por 90,39% do emprego formal das atividades características de turismo, com liderança de Vitória (9.912 empregos) e Vila Velha (5.464), seguidas por Guarapari (2.284) e Serra (2.028).


Figura 4 – Emprego formal e salários das atividades características de turismo nos principais municípios litorâneos (recorte RAIS).

Fonte: elaboração própria com base em dados secundários consultados em março de 2026 (recorte RAIS).


A concentração da massa salarial é ainda mais intensa. Vitória reúne 49,35% dos salários pagos no recorte observado (R$ 20,56 milhões), enquanto Vila Velha soma 24,36% (R$ 10,15 milhões).

Entre os cinco principais municípios, o salário médio varia de R$ 1.469,35 em Anchieta a R$ 2.074,00 em Vitória, sugerindo que a centralidade territorial das atividades características de turismo se expressa não apenas no número de empresas, mas também na geração de postos formais e renda do trabalho.

O padrão territorial observado converge com Fonseca et al. (2022), para quem o turismo litorâneo brasileiro se apoia fortemente em estruturas urbanas preexistentes e em seletividades espaciais.

No Espírito Santo, a hierarquia urbana, a acessibilidade e a densidade de serviços parecem favorecer a concentração metropolitana, enquanto municípios menores tendem a apresentar base empresarial mais rarefeita e mercado formal de trabalho mais estreito, provavelmente mais exposto à sazonalidade.

Para a agenda de observatórios e da gestão pública, isso reforça a importância de indicadores territorializados e comparáveis, em linha com a ênfase do Plano Nacional do Turismo 2024-2027 em gestão inteligente, dados e estudos confiáveis (BRASIL, 2024).

As limitações do estudo decorrem do próprio caráter da base utilizada, que não incorpora informalidade, fluxo de visitantes, permanência média, gasto turístico ou pressão socioambiental; além disso, os indicadores de emprego e salários cobrem apenas o segmento formal captado na RAIS.

Ainda assim, a leitura da oferta formal amplia a compreensão do lugar ocupado pelo turismo na Economia do Mar capixaba e mostra a utilidade analítica de bases integradas para o planejamento.


4. CONSIDERAÇÕES FINAIS


O estudo mostrou que as atividades características de turismo constituem o principal componente empresarial formal da Economia do Mar capixaba em termos de número de firmas, mas que essa centralidade se materializa de maneira territorialmente desigual e setorialmente concentrada em atividades de alimentação e bebidas. No recorte formal de trabalho, o setor reúne 21.782 empregos ativos e R$ 41,65 milhões em salários, igualmente concentrados em poucos municípios, sobretudo Vitória e Vila Velha. Em síntese, o litoral do Espírito Santo revela um turismo economicamente central, urbano em sua organização e fortemente polarizado por poucos municípios.

Ao aproximar dados empresariais, emprego formal, remuneração do trabalho, visualização territorial e debate sobre observatórios, o trabalho contribui para deslocar a leitura da economia do mar estadual de setores tradicionalmente mais visíveis para uma perspectiva mais abrangente, na qual os serviços turísticos ocupam papel decisivo. Tal achado é relevante tanto para a agenda acadêmica quanto para a formulação de políticas públicas, pois sugere que estratégias uniformes para todo o litoral tendem a obscurecer desigualdades internas do setor.

Como agenda futura, recomenda-se combinar a leitura da oferta formal com bases de demanda, sazonalidade, ocupação hoteleira, mobilidade, arrecadação, informalidade laboral e indicadores socioambientais. Esse avanço pode qualificar diagnósticos locais, apoiar decisões mais calibradas e fortalecer o uso dos observatórios como infraestrutura informacional do turismo capixaba.


REFERÊNCIAS


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1 UFES, Departamento de Economia. Doutor em Economia (UFRGS).

2 UFES, Departamento de Economia. Doutora em Economia do Desenvolvimento (UFRGS).

3 UFES, Departamento de Economia; PPGER/UFRRJ. Doutor em Economia Aplicada (Universidad Complutense de Madrid).

4 A base utilizada foi o Repositório da Economia do Mar do Espírito Santo – E-mar (disponível em https://labcidades.ufes.br/e-mar). No recorte adotado pelo projeto E-mar, o macrossetor Turismo é operacionalizado por 27 CNAEs que abrangem hospedagem (hotéis, apart-hotéis, motéis, albergues, campings, pensões e outros alojamentos), alimentação e bebidas (restaurantes, lanchonetes, bares, serviços ambulantes, bufê, cantinas e fornecimento de refeições), intermediação e mobilidade turística (agências de viagens, operadores turísticos, excursões rodoviárias, trens turísticos/teleféricos e transporte aquaviário para passeios), além de atividades de esporte, recreação e lazer (ensino de esportes, clubes sociais e esportivos, eventos esportivos, aluguel de equipamentos recreativos e outras atividades de lazer). Um aspecto metodológico central é que, na classificação atualmente usada pelo projeto, todos esses CNAEs estão marcados com o critério de proximidade, isto é, só são incorporados à Economia do Mar quando o estabelecimento geocodificado se localiza em uma faixa litorânea de 5km de extensão; portanto, diferentemente de outros macrossetores da base, não há, no caso do turismo, CNAEs que ingressem no recorte independentemente da proximidade espacial com o mar.

191 Revista Brasileira dos Observatórios de Turismo - ReBOT, Natal/RN, v.5, n.2, Dossiê 4ª Mostra de Pesquisa Científica e Mercadológica da RBOT, p. 186-195, 2026.