QUANDO A PALAVRA ENCONTRA A ESCUTA:
CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA ATUAÇÃO EM SERVIÇOS PÚBLICOS
Palavras-chave:
Psicanálise, Escuta psicanalítica, Clínica Pública, ÉticaResumo
: Este artigo objetiva explorar as contribuições da psicanálise para a atuação em situações sociais críticas, destacando a relevância de uma escuta que transcende os parâmetros clínicos tradicionais e sustenta a singularidade do sujeito em contextos de instituições públicas. Busca-se demonstrar como a abordagem psicanalítica pode operar como uma bússola ética e clínica em espaços formais e informais de intervenção, resistindo à padronização e à burocracia que frequentemente silenciam o sujeito. Metodologia: A metodologia que orienta esta reflexão é de inspiração freudiana e lacaniana, fundamentando-se na escuta da singularidade e na centralidade da palavra e da transferência no processo psicanalítico. O trabalho se configura como uma elaboração subjetiva das vivências profissionais da autora como psicóloga, orientada pela psicanálise, em serviços públicos de saúde e assistência social. São apresentados e analisados três recortes de casos clínicos. Apresentados aqui com nomes fictícios: Ana (adolescente em acolhimento institucional), João (paciente em ambulatório de HIV/Aids) e Rosa (mulher em situação de violência sexual) — que ilustram a aplicação da escuta psicanalítica nesses contextos. A análise dos casos se apoia em conceitos como a associação livre, a transferência (como suposição de saber e suposto desejo), o real do trauma, e o tempo lógico de Lacan (instante de ver, tempo para compreender, momento de concluir). A abordagem privilegia a dimensão ética do cuidado e a potência da palavra para a construção de sentido e a reorganização de enlaces psíquicos, mesmo diante do sofrimento em contextos sociais. Resultados: Os casos ilustram vivências que evidenciam como a escuta psicanalítica possibilita a emergência da singularidade, mesmo em ambientes institucionais marcados por protocolos e urgências. No caso de Ana, a escuta analítica permitiu a construção de um laço que ofereceu um espaço de fala sem julgamento, possibilitando à adolescente nomear seus sofrimentos e inscrever seu desejo. Para João, a dinâmica transferencial e a sustentação do vínculo permitiram que a apatia, antes impeditiva, desse lugar a uma interrogação sobre seu desejo e a um deslocamento subjetivo frente ao real do trauma do diagnóstico de HIV. No caso de Rosa, a escuta funcionou como suporte para que a paciente atravessasse sua experiência traumática, reposicionando-se de objeto para sujeito. Conclusão: Os casos demonstram que a psicanálise se reafirma como um dispositivo potente de cuidado e dignidade em contextos institucionais. A escuta analítica em contextos públicos se configura portanto, como um gesto ético, clínico e político.
