O PODER PASTORAL EM FOUCAULT E A TRANSFERÊNCIA DE FREUD NA PSICANÁLISE:

REFLEXÕES PARA A EDUCAÇÃO

Autores

Palavras-chave:

poder pastoral, transferência, educação, psicanálise, subjetividade

Resumo

Este artigo analisa a articulação entre o conceito de poder pastoral, desenvolvido por Michel Foucault, e o fenômeno da transferência, central na teoria psicanalítica de Sigmund Freud, destacando suas implicações para a prática docente. O objetivo é compreender de que forma essas duas dimensões, poder e afeto, se cruzam na relação professor-aluno, moldando tanto os processos pedagógicos quanto a formação subjetiva dos estudantes. Partindo da constatação de que a escola moderna não se limita à transmissão de conteúdos, mas constitui-se como espaço de produção de subjetividades e de regimes de verdade, discute-se como o professor ocupa o lugar simultâneo de guia moral, intelectual e emocional, atravessado pelas projeções transferenciais dos alunos. A metodologia adotada foi qualitativa e de caráter teórico, baseada em revisão bibliográfica. O recorte privilegiou estudos que analisam como as práticas escolares produzem subjetividades e como a transferência se manifesta nas relações educativas. Os resultados indicam que o poder pastoral se manifesta na prática docente por meio de um acompanhamento contínuo dos alunos, não restrito ao domínio acadêmico, mas estendido à formação ética e emocional. O professor assume, nesse contexto, a função de pastor, que guia e orienta os “fiéis” de forma individualizada e constante, moldando identidades e comportamentos. Esse processo é intensificado pela transferência, que leva os alunos a projetarem no professor sentimentos de amor, respeito, temor ou hostilidade, originados em vínculos afetivos anteriores. Essa projeção, embora muitas vezes favoreça a aprendizagem ao fortalecer o vínculo pedagógico, também pode gerar resistências e sobrecarga emocional para o docente, que precisa equilibrar expectativas institucionais e demandas afetivas para as quais nem sempre possui formação adequada. A discussão demonstra que a interseção entre poder pastoral e transferência cria um campo complexo de forças no ambiente escolar. Por um lado, permite uma aproximação entre professor e aluno, criando condições favoráveis ao aprendizado; por outro, pode perpetuar relações de dependência e submissão, comprometendo a autonomia discente. Conclui-se que a compreensão dessas dinâmicas é fundamental para a construção de uma prática pedagógica crítica e ética. Reconhecer que a educação é atravessada por poder e afeto não significa rejeitar tais dimensões, mas transformá-las em instrumentos de emancipação. Cabe ao professor assumir conscientemente o lugar simbólico que ocupa, reconhecendo a inevitabilidade da transferência e do poder pastoral, mas buscando manejá-los de modo a favorecer a autonomia, a criticidade e a formação de sujeitos capazes de questionar estruturas de dominação. Ao abrir espaço para uma pedagogia que valorize a escuta, o diálogo e a subjetividade, torna-se possível transformar a docência em prática de liberdade.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Catarina Quintela Soares, Universidade de Fortaleza

Psicóloga Clínica (CRP 11/19535). Mestranda em Psicologia (Universidade de Fortaleza - 2024). Membro do Laboratório de Estudos Sobre Psicanálise, Cultura e Subjetividade (LAEPCUS) do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UNIFOR. Psicóloga voluntária no Projeto de Pesquisa Violência de gênero contra a mulher: uma proposta de escuta e intervenção com as mulheres e com os filhos, do LAEPCUS. Pós-Graduada em Psicanálise e suas extensões (Universidade de Fortaleza - 2024). Pós-Graduada em Arte e Educação (Universidade Estadual do Ceará - 2003). Pós-Graduada em Gestão de Produtos e Serviços Culturais (Universidade Estadual do Ceará - 2002). Pós-Graduada em Gestão Escolar Integrada e Práticas Pedagógicas (Faculdade Única de Ipatinga - 2023). Graduada em Psicologia (Universidade de Fortaleza - 2022). Graduada em Pedagogia (Universidade de Fortaleza - 1998). Graduada em Ciências Sociais (Universidade de Fortaleza - 1982).

Leonardo José Barreira Danziato, Universidade de Fortaleza

Professor Doutor Titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade de Fortaleza, coordenador do Laboratório de Estudos em Psicanálise, Cultura e Subjetividade (LAEpCUS); Editor da Revista Subjetividades do PPG Psicologia da Unifor; Doutor e Mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará; Membro do Grupo de Trabalho da ANPPEP Psicanálise, cultura e política. Psicanalista, Analista-Membro da Litoral - Escola de Psicanálise. Psicanalista com uma prática clínica desde 1987. Autor de livros e artigos diversos. Desenvolve estudos e pesquisas que investigam os processos culturais, discursivos, políticos e subjetivantes no mundo contemporâneo realizando uma leitura e uma utilização crítica e política dos conceitos psicanalíticos e foucaultianos. Tem coordenado e acompanhado trabalhos de pesquisa sobre violência de gênero, estudos de gênero e psicanálise, as sexualidades, o corpo e a política, entre outras. No âmbito institucional, tem investigado as manifestações da adolescência, especialmente as práticas das autolesões no contexto educacional. Em uma perspectiva mais clínica, encaminha suas investigações e orientações para as condições estruturais do sujeito tal como se apresenta no espaço da prática psicanalítica: a constituição do sujeito, as estruturas clínicas, as psicopatologias, assim como a teoria da clínica, suas condições, seus tempos e seus fundamentos

Downloads

Publicado

2025-12-19