TRANSFOBIA E DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS

ABJEÇÃO E VIOLÊNCIA SIMBÓLICA CONTRA FEMINILIDADES TRANS NO INSTAGRAM

Autores

Palavras-chave:

Transfobia, Discursos de Ódio, Abjeção, Cissexismo, Instagram

Resumo

Este artigo analisa as manifestações de transfobia, discursos de ódio e processos de abjeção direcionados às feminilidades trans no Instagram, considerando a centralidade das redes sociais na produção contemporânea de subjetividades, vínculos e disputas simbólicas. A partir de uma abordagem qualitativa, fundamentada na psicanálise, nos estudos de gênero e na análise do discurso, investigam-se publicações, comentários e interações circulantes na plataforma que expressam práticas cissexistas, moralizantes e violentas. A pesquisa parte do entendimento de que o Instagram, embora seja um espaço de visibilidade e resistência, também funciona como arena de exclusão e de reprodução de violências estruturais, onde o ódio se potencializa pela lógica algorítmica e pela sensação de anonimato que favorece a impunidade. O estudo mobiliza conceitos como abjeção (Kristeva), violência simbólica (Bourdieu), performatividade de gênero (Butler) e segregação (Lacan, Soler, Benslama) para interpretar a forma como identidades trans são marcadas pela rejeição social, pela patologização e pela negação de existência. Os resultados dialogam com pesquisas nacionais que evidenciam a alta incidência de ataques transfóbicos, destacando que tais discursos se articulam a um contexto político e cultural de crescente polarização, moralismo religioso e amplificação de desinformações. Dados recentes indicam que pessoas trans, especialmente mulheres trans e travestis negras, enfrentam taxas alarmantes de violência física, simbólica e digital — realidade agravada pelo uso de narrativas cissexistas que buscam reafirmar o binarismo de gênero e justificar a exclusão. O corpus analisado evidencia três movimentos principais: (1) a circulação coletiva de discursos transfóbicos, impulsionados pela repetição algorítmica, que consolidam comunidades de ódio; (2) o aumento de ataques após a ascensão de discursos políticos reacionários, especialmente a partir de 2018; e (3) a mudança na paisagem discursiva após a aplicação do Marco Civil da Internet e da Lei do Racismo, que resultou na remoção de conteúdos transfóbicos durante o período eleitoral de 2022, embora sem eliminar as práticas de violência simbólica. Observa-se, ainda, que a lógica da abjeção atua na tentativa de expulsar as feminilidades trans do espaço social, reduzindo suas possibilidades de reconhecimento, acesso a direitos e participação cidadã. Conclui-se que a transfobia digital não apenas reflete, mas intensifica desigualdades estruturais, sustentando processos psíquicos e sociais de exclusão que impactam a vida cotidiana, as trajetórias acadêmicas, profissionais e afetivas das pessoas trans. Entretanto, também emergem formas de resistência e contra-discurso, produzidas por sujeitos e coletivos trans que utilizam o Instagram para disputar narrativas, afirmar identidades e reivindicar cidadania. O estudo contribui para a compreensão crítica da violência simbólica nas redes e reforça a importância de políticas públicas, práticas educativas e estratégias de acolhimento que enfrentem a transfobia em suas dimensões discursivas, institucionais e subjetivas.

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Biografia do Autor

Keila Andrade Haiashida, Universidade Estadual do Ceará

Universidade Estadual do Ceará (UECE)Doutora em Geografia (UECE), Mestra em Educação (UFC), Graduada em Pedagogia (UFC), Graduanda em Psicologia (UNINASSAU). Professora Adjunta da UECE e Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação e Ensino (PPGEEN-UECE)) e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em História e Letras (PPGHIL-UECE), colaboradora no Laboratório de Estudos de Gênero, Sexualidade e Psicologia (LABGESP).

Iasminny Loiola Teixeira, Universidade Maurício de Nassau (UNINASSAU)

Mestra em Psicologia (UNIFOR), Especialista em Psicologia Aplicada à Educação (URCA) Graduada em Psicologia (UNILEÃO). Professora da Universidade Maurício de Nassau (UNINASSAU), Coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero, Sexualidade e Psicologia (LABGESP)

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Publicado

2025-12-19