Infância subversiva
a ruptura da heteronormatividade em Seis vezes Lucas, de Lygia Bojunga
DOI:
https://doi.org/10.59776/2357-8203.2026.7464Palavras-chave:
Seis vezes Lucas, Lygia Bojunga, violência, criançaResumo
Este trabalho analisa a obra Seis Vezes Lucas (1999), de Lygia Bojunga, destacando sua escrita transformadora que rompe com a ideia de uma literatura infantil idealizada e pedagógica. Em oposição à representação da criança como sujeito passivo e ingênuo, Bojunga constrói personagens infantis dotados de autonomia criativa e sensibilidade crítica diante dos conflitos do mundo adulto. A análise foca especialmente no ambiente caóide vivenciado por Lucas em sua relação com o pai, marcada por violências simbólicas e pela dominação masculina. Destacamos como, afetado pelo caos, o personagem estabelece uma zona de vizinhança entre o Devir-artista e o Devir-criança, conforme teorizado por Deleuze e Guattari (2012), encontrando fissuras no sistema patriarcal que tenta aprisioná-lo, desterritorializando a estrutura familiar hierárquica em que vive. A análise fundamenta-se ainda nas contribuições de Pierre Bourdieu (2002), acerca da violência simbólica e da dominação masculina, e em Chimamanda Adichie (2017), no que tange à construção de gênero e a urgência de uma educação feminista para crianças. Conclui-se que Lucas representa uma infância marginalizada pela lógica heteronormativa e patriarcal, mas que resiste por meio da criação de um universo próprio, onde pode elaborar novas formas de ser e de existir enquanto menino. A narrativa de Bojunga, portanto, não só reconfigura o lugar da criança na literatura, como também propõe uma crítica social contundente ao mostrar a infância como potência criadora, capaz de subverter ordens estabelecidas e de reinventar afetos e territórios.
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