Entre dizer e silenciar: a construção discursiva dos obituários femininos na Folha de S. Paulo
DOI:
https://doi.org/10.22297/2316-17952026v15e02613Palabras clave:
Obituários femininos, Memória Discursiva, Formações Discursivas, MorteResumen
Este artigo investiga a construção discursiva dos obituários femininos publicados na Folha de S.Paulo, tomando-os como materialidades nas quais se inscrevem processos de produção de memória, ideologia e representação de gênero. Ancorada na Análise de Discurso de filiação francesa, sobretudo nas formulações de Michel Pêcheux, a pesquisa parte do pressuposto de que o discurso se constitui na relação indissociável entre língua, história e ideologia, sendo atravessado por condições de produção que delimitam o dizível e o silenciável. O corpus é composto por obituários de mulheres publicados no referido periódico, com destaque para os casos de Marília Mendonça, Rita Lee e Aracy Balabanian, cujos casos permitem observar o funcionamento discursivo da memória pública. Metodologicamente, mobilizam-se conceitos como formação discursiva, interdiscurso, memória discursiva, posição-sujeito e efeitos de sentido, a fim de analisar como tais textos operam na seleção, hierarquização e apagamento de aspectos das trajetórias femininas. A análise evidencia que, ao narrar a morte de mulheres, os obituários não apenas informam o falecimento, mas produzem efeitos de evidência que naturalizam determinadas leituras, frequentemente deslocando o foco das realizações profissionais e da atuação pública para dimensões relacionadas ao corpo, à vida privada, à maternidade ou a traços estigmatizados. Conclui-se que o obituário jornalístico configura-se como espaço de disputa simbólica pela memória, no qual se reiteram e tensionam formações ideológicas que atravessam a constituição do feminino na esfera pública, evidenciando que o que se diz, bem como o que se silencia, participa ativamente da produção de sentidos sobre as vidas narradas.
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